Gostaria de relembrar que trago aqui apenas trechos da minha monografia, dando destaques aos principais acontecimentos e breves análises sobre a viagem de d. Pedro II em 1878 pelo Vale do Paraíba. Divirtam-se!

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1878 era ano de eleições nas diversas municipalidades do Império e os republicanos começavam a tomar corpo com a vitória de alguns candidatos. A aprovação da Lei do Ventre Livre em 1871 fomentou a ira dos cafeicultores das províncias do sul e, principalmente dos escravocratas valeparaibanos.

A prova de que os republicanos já incomodavam muitos setores da política está no jornal Gazeta de Taubaté (11 de agosto de 1878, p. 2) que relata: “a força pública de Jacarehy tomou o largo da Matriz, fez exercício de fogo, debandou o povo e tomou o paço municipal. Ouviam-se gritos de morram os republicanos!” e complementa mais à frente “os republicanos venceram nas Araras. Os republicanos e os conservadores na Limeira”. Há vários relatos de abusos de poder, brigas e uso necessário da força pela polícia para conter os desgostosos. “Em Jacarehy a força de linha foi obrigada a retirar-se. Houve uma liga entre fazendeiros. Os republicanos triunfam” (Gazeta de Taubaté, 11 de agosto de 1878, p. 2). O poder da monarquia começava a ser questionado não somente pelos primeiros republicanos, mas também pelos mais radicais do Partido Liberal.

Sabendo da importância que a presença de sua figura iria causar nas elites valeparaibanas é que d. Pedro II refez o caminho percorrido pelo seu genro um ano antes, “inaugurando” novamente cada estação de trem das cidades da região. Tratava-se de uma viagem expressa, com pequeno espaço para as cerimônias pomposas e para os encontros demorados com os políticos locais – agradando ao Imperador que já estava cansado desse tipo de ritual pomposo e bajulador.

Às 14h40, d. Pedro II, a Imperatriz Thereza Cristina e toda a comitiva chegaram à Guaratinguetá. Após breve recepção na estação de trem, seguiram de carruagem até o palacete do Visconde de Guaratinguetá, “onde lhes foram servido jantar, durante o qual a banda de música tocou” (MOURA, 2002, p. 112). Dali visitaram a igreja Matriz e a Santa Casa de Misericórdia (Diário do Norte, 11 de setembro de 1878, p. 2). Era desejo da Imperatriz uma visita à capela de Nossa Senhora Aparecida, mas foi negado por d. Pedro II que, talvez pela necessidade de logo embarcar para São Paulo, furtou-se de conhecer a capela tão visitada por sua filha. Em carta ao amigo Conde d’Eu, o Visconde de Guaratinguetá transpassa sua decepção com a negativa do Imperador em visitar a capela, que estava toda preparada para a ocasião. […] Eu senti que S. Majestade lá [na capela de Nsa. Sra. Aparecida] não fosse para ver com o estado de adiantamento em que vai aquela importante obra […]. Eu tinha mandado armar a Igreja, e tudo estava disposto para a recepção imperial (1878 apud MOURA 2002, p. 127).

Partiram dali para Pindamonhangaba. Na manhã seguinte visitaram alguns prédios públicos e foram até o palacete do Barão da Palmeira para contemplarem a vista do “soberbo Vale do Paraíba e a majestosa Serra da Mantiqueira” (MARCONDES, 1922, p. 35). O convite do Barão da Palmeira não se restringia apenas para que a família Imperial se deslumbrasse com a vista da região. Para a ocasião, ele havia mandado remodelar todo o seu palacete, trazendo um arquiteto e um decorador da França, além de adquirir vários objetos de decoração e utensílios domésticos de alto valor financeiro e artístico.

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Em Taubaté, o jornal Gazeta de Taubaté (11 de agosto de 1878, p. 3) traz a notícia da chegada do monarca de forma bem diferente daquela feita quando a Princesa Isabel pisou em solo taubateano. Usando da sátira, o jornal flerta com uma fina ironia à figura intelectual do Imperador e também faz duras críticas à pompa e à ritualística empregadas na recepção do monarca, afirmando que enquanto as lavouras da região carecem de investimento, d. Pedro II e as elites da região estão mais preocupadas com os “dias de gala” que a monarquia irá oferecer na cidade. “E o que é mais notável é – que os empregados públicos são os que mais lucram com a vinda da Majestade: que o diga cá o redator da história, em?” (Gazeta de Taubaté, 11 de agosto de 1878, p. 3). O articulista continua sua sátira às tantas pompas e cerimônias preparadas pelas cidades que recepcionaram d. Pedro II na sua rápida passagem, fazendo uma pequena poesia:

Já lá vai um dia de grande gala.

Em Lorena, a mesma cantilena!

Em Guaratinguetá…ta…ta…

Em Pindamonhangaba, o mesmo doce de goiaba.

Em Taubaté, o mesmo rapapé.

Em Caçapava… nada caçava… (Gazeta de Taubaté, 11 de agosto de 1878, p. 3).

Em 2 de outubro retornaram a Taubaté, chegando ás 10 horas da manhã e permanecendo por um período mais longo que na ida. A estação estava devidamente enfeitada com flâmulas, bandeiras e flores, além da presença do “Sr. Dr. presidente da câmara municipal, autoridades civis, clero e, numerosamente, povo em número superior a 1000 pessoas” (Gazeta de Taubaté, 6 de outubro de 1878, p. 2).
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Novamente o redator do Gazeta de Taubaté faz uma análise muito perspicaz sobre a importância que todo o jogo teatral de poder da monarquia, com sua pompa e circunstância, tem na formação da posição política de muitos cidadãos, sejam eles nobres ou não:

Não desgosto dessas manifestações, não senhores. Ao contrário, regala-me ver o povo como as cruzetas dos ventos que se movem ao menor sopro. Porem não gosto de ver o servilismo em ação quando se trata de certos, independentes e determinados caracteres que bem podiam abdicar da sem cerimonia com que se manifestam – hoje republicanos, amanhã socialistas, mais tarde liberal, conservador… etc. porque um cartório… uma barreira… até mesmo um jantar, fascina-os de tal modo que seria um crime de leso-interesse declinar do plano a que se inclinam” (Gazeta de Taubaté, 12 de outubro de 1878, p. 3).

As pompas da monarquia pareciam encantar menos aos olhos e desagradar mais à razão dos descontentes com o regime nas cidades valeparaibanas.


Livros:

MARCONDES, A. Pindamonhangaba através de dois e meio séculos. São Paulo: Tip. Paulista, 1922.

MOURA, C. E. M. O Visconde de Guaratinguetá: Um Titular do Café no Vale do Paraíba. São Paulo: Studio Nobel, 2002.

Jornais:

Diário do Norte, 11 de setembro de 1878.

Gazeta de Taubaté, 11 de agosto de 1878.

Gazeta de Taubaté, 6 de outubro de 1878.

Gazeta de Taubaté, 12 de outubro de 1878.

Documentos avulsos:

Arquivo da Casa Imperial do Brasil, Doc. 8192, de 12 de outubro de 1878.

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