Após as festas de fim de ano e a correria do começo de 2012, trago mais uma das viagens realizadas por d. Pedro II e pela Princesa Isabel às cidades do Vale do Paraíba paulista. Hoje, publico trechos da viagem feita pela Princesa Isabel em 1884. Espero que gostem!

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A década de 1880 foi composta por anos bem difíceis para a monarquia brasileira. Pressões de vários lados surgiam dia após dia. Os abolicionistas, já em grande número, almejavam uma posição firme da família Imperial contra a questão da escravidão. Por outro lado, os cafeicultores do sudeste, principalmente os conservadores da região do Vale do Paraíba fluminense e paulista já estavam há tempos arrepiados com a ideia da monarquia cortar sua fonte de mão-de-obra. Grande parte desses fazendeiros tinham em seus escravos a única fonte de riqueza. “Numa relação de hipotecas de 1883, observa-se que o valor do escravo chega a representar 80% e até 90% do valor da fazenda, havendo regiões em que supera o valor das terras, como, por exemplo, em Sapucaia, Barra de São João e Taubaté” (VIOTTI, 1997, p. 263). Como esperar que esses cafeicultores escravocratas fossem simpáticos às causas abolicionistas defendidas pela legítima representante do Império brasileiro?

Para tentar apaziguar os ânimos dos liberais, dos republicanos que ganhavam espaço e principalmente dos cafeicultores descontentes é que a Princesa Isabel e d. Pedro II dedicaram duas viagens oficiais (1884 e 1886, respectivamente) à região do Vale do Paraíba paulista.

Princesa Isabel, Conde D’Eu e filhos (1885)

Em 1884, a princesa e o Conde d’Eu organizaram uma estratégica visita às “províncias do Sul”, como eram chamadas São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande. Em São Paulo, visitariam Lorena e fariam rápidas paradas nas demais cidades do Vale paulista, dirigindo-se à capital e à região de Campinas.

Em sessão extraordinária de 22 de setembro de 1884, os vereadores lorenenses aprovaram uma série de medidas para o embelezamento da cidade, visando a inauguração do Engenho Central, que oportunamente ocorreria na presença dos príncipes Imperiais (Ata da Câmara de Lorena, 22 de setembro de 1884).

Com a cidade preparada, a Princesa Isabel chegou a Lorena com o Conde d’Eu e seus filhos no dia 5 de novembro, às 2h30 da tarde (Correio Paulistano, 6 de novembro de 1884, p. 2). Nas cartas que enviou para seu pai (reunidas em forma de diário pelo escritor Ricardo Daunt) a princesa reclama ao chegar na estação de Lorena: “chegada a Lorena, às 2 horas e meia, com meus olhos ardendo desesperadamente, por causa do carvão” (DAUNT, 1957, p. 26). O desconforto era causado não só pela fumaça emitida pela locomotiva, mas também pela poeira que a estrada de ferro levantava devido ao fato de ainda não estar empedrada (DAUNT, 1957, p. 51).

Conde de Moreira Lima

Ainda na estação, o Visconde de Moreira Lima os aguardava com duas carruagens prontas para levá-los ao seu palacete, onde seriam hospedados. Às 7 horas da noite foi servido um jantar para todos os convidados. Poucos titulares da região fizeram-se presentes no evento; dentre eles estavam os Viscondes da Palmeira, a Baronesa de Paraibuna, o Barão de Romeiro, a Viscondessa de Guaratinguetá, a Viscondessa de Pindamonhangaba e o chefe do Partido Liberal, dr. Manoel Marcondes de Moura e Costa (DAUNT, 1957, p. 52).

No dia seguinte, os príncipes visitaram a recém-construída Igreja de São Benedito, erguida graças aos esforços e dinheiro do Visconde de Moreira Lima. Dali seguiram de bondinho de tração animal para o maior empreendimento industrial do Vale do Paraíba paulista àquela época: o Engenho Central de Lorena. Todo financiado e construído pela família Moreira Lima, o Engenho possuía vapores fluviais e ramal ferroviário próprios, chamando a atenção e o interesse do Conde d’Eu (SOBRINHO, 1978, p. 104). Novamente, a Princesa Isabel relata em suas cartas a d. Pedro II a passagem pelo Engenho do Visconde: “visita ao Engenho Central, muito interessante. O Pedro seguiu todo o processo, com o maior interesse” (DAUNT, 1957, p. 26).

Engenho Central de Lorena

Aparentemente tudo ocorreu na mais perfeita harmonia e os príncipes foram muito bem recebidos. Porém, quando se apagam as luzes da festa, acendem-se o fogo das más línguas. A imagem do casal de príncipes já estava bem arranhada devido aos conflitos de uma sociedade escravocrata que não via com bons olhos as declarações de apoio da Princesa Isabel aos abolicionistas. Nessa última visita da Princesa Isabel, a futura Baronesa de Santa Eulália, irmã do então Visconde de Moreira Lima, escrevendo a uma de suas colegas sobre as festividades de recepção ao casal de príncipes, relatou: “eu não faço parte e nem tomo parte em nada, porque seu Pai não gosta da Princesa” (AZEVEDO, 1962, p. 38), deixando claro sua indisposição em fazer parte daquele teatro armado pelo irmão. Evangelista (1978, p. 179) descreve que “muitas das meninas das melhores famílias não jogaram pétalas de rosa no casal, quando chegou ao palacete, e muitas senhoras não participaram nem do jantar de gala, nem do concerto e nem do baile na residência do Dr. Teófilo Braga”. Se em 1868, os dias em que os príncipes permaneceram em Lorena foram extremamente concorridos, em 1884 a Princesa Imperial e seu Augusto Esposo pareciam não mais atrair tanta gente.

Coroa doada pela Princesa Isabel

Desta forma, ainda no dia 6 de novembro, a comitiva Imperial deixou a cidade de Lorena, rumo à Guaratinguetá. A breve parada nesta cidade tinha objetivo bem específico, conforme observado pela própria Princesa Isabel: “parada em Guaratinguetá, parada para subir à Capela de Nossa Senhora Aparecida, fazer oração” (DAUNT, 1957, p. 26). Nesta ocasião, segundo a crônica publicada no jornal Santuário de Aparecida (19 de novembro de 1921, p. 5) a princesa voltou à igreja, junto com o marido e seus três filhos para agradecer à santa por ter atendido seu pedido feito em 1868: o de engravidar do herdeiro do trono brasileiro. Se em 1868, a devota princesa doou um majestoso manto, dessa vez a imagem ganhava uma rica coroa de ouro, a mesma que foi utilizada na coroação de Nossa Senhora Aparecida como Rainha e padroeira do Brasil, em 1904 (MOURA, 2002, p. 111).

Dali partiram para Pindamonhangaba, onde foram recepcionados pela Viscondessa de Pindamonhangaba. Após breve parada, seguiram para Taubaté e Caçapava, apenas descendo na estação. Saíram então do Vale do Paraíba e rumaram para Santos, onde embarcaram para o porto de Paranaguá, rumo às províncias do Sul.

Na volta para a Corte, cerca de quatro meses depois, a Princesa Isabel, o Conde d’Eu e seus filhos passaram novamente pela região, fazendo breves paradas pelas estações das cidades e pernoitando novamente na residência dos Moreira Lima. Em Pindamonhangaba, ocorreu um fato que demonstrou o desprezo que os titulares da região tinham pela figura da Princesa Imperial. O jornal Tribuna do Norte (13 de março de 1885, p. 3) noticiou o constrangimento pelo qual os príncipes passaram na estação de Pindamonhangaba:

Passaram no dia 12 para a corte SS. AA. II. que chegado do passeio que fizeram à província do Rio Grande. Na estação, além dos empregados da companhia, nem viva alma. O trem especial em que vinham demorou-se meio minuto, e… foram-se os príncipes, com destino à Lorena, onde tinham de pernoitar em companhia do Exmo. Sr. Visconde de Moreira Lima.

Parece que nem o Barão da Palmeira, eterno incansável em tentar agradar e encantar a família Imperial, estava fora do grupo dos nobres cafeicultores que viam a Princesa Isabel como a responsável direta pelo fim da utilização da mão-de-obra escrava.

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Livros:

AZEVEDO, A. Arnolfo de Azevedo – infância e adolescência (1868 a 1887). São Paulo: Nacional, 1962.

DAUNT, R. G. Diário da Princesa Isabel: excursão dos Condes D’Eu à Província de São Paulo em 1884. São Paulo: Anhembi, 1957.

EVANGELISTA, J. G. Lorena no século XIX. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.

SOBRINHO, A. M. A civilização do café, 1820 – 1920. (Cap. XIII: Imperadores e príncipes no Vale). Ed. Brasiliense, 1978.

VIOTII, E. Da senzala a colônia. São Paulo: Unesp, 1997.

Jornais:

Correio Paulistano, São Paulo, 6 de outubro de 1878.

Santuário de Aparecida, 19 de novembro de 1921.

Tribuna do Norte, Pindamonhangaba, 13 de março de 1885.

Documentos avulsos:

Ata da Câmara de Lorena, sessão extraordinária de 22 de setembro de 1884.

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