Caros amigos, tenho o prazer de trazer-lhes a última viagem de d. Pedro II ao Vale do Paraíba. São recortes dos principais acontecimentos dessa que foi a principal viagem do Imperador tentando apaziguar os ânimos dos cafeicultores escravocratas. Divirtam-se!

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A questão da abolição aliada à crescente força que os republicanos tinham adquirido no cenário político reforçava a necessidade do Imperador e da Imperatriz sair da Corte e tentar mais uma vez usar todo o aparato simbólico da monarquia para evitar que mais nobres da região valeparaibana deixassem a base de sustentação do Império. Seria não só a última viagem de d. Pedro II pelo Vale do Paraíba, mas também a que o Imperador mais se empenhou para agradar a todos nas cidades pelas quais passava. Era o tiro de misericórdia.

O esplêndido avanço tecnológico da segunda metade do século XIX auxiliou os jornalistas a publicarem com apenas um dia de diferença os detalhes minuciosos dessa última viagem de d. Pedro II pelo Vale do Paraíba. Por telegrama, o correspondente do jornal Correio Paulistano (19 de outubro de 1886, p. 2) relata a chegada do Imperador em solo valeparaibano: “estação da Cachoeira, 18 de Outubro, 12.30 da tarde. Há dez minutos chegou a esta estação o trem Imperial, que saíra da corte as 6 da manhã, sendo a viagem feita nas melhores condições”. A extensa comitiva contava com cerca de trinta pessoas, onde estavam a família Imperial, além de nomes importantes onde destacam-se dentre outros o pintor Almeida Júnior, o Barão de Parnaíba, então presidente da província de São Paulo, o conselheiro Antônio Prado, o dr. Cochrane, além de ministros da Bolívia e da Argentina. (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2). De Cachoeira, partiram para Lorena.

A ata da Câmara Municipal de Lorena de 19 de setembro de 1886 já determinava que “fique autorizado o sr. Presidente da Câmara a fazer as despesas precisas com concertos de ruas e praças e outros serviços, a fim de se preparar a Cidade para receber Sua Majestade, o Imperador”, porém colocava uma ressalva que até então não tinham aparecido nas demais visitas de membros da família Imperial: “devendo observar a maior economia possível nesses dispêndios” (Ata da Câmara de Lorena, 19 de setembro de 1886). Os tempos eram outros e a pompa de que tanto a monarquia necessitava já era vista como gasto que onerava os cofres públicos e não traziam tantos benefícios palpáveis para as decadentes finanças de Lorena.

“Os pontos principais de visitação, o palacete Moreira Lima, a igreja de São Benedito, foram iluminados a gás, especialmente, instalado para o acontecimento” (SOBRINHO, 1978, p. 105). Além disso, a Câmara Municipal solicitou à Companhia da Estrada de Ferro do Norte que pintasse e preparasse a estação de trem da cidade para a recepção do Imperador (Ata da Câmara de Lorena, 29 de setembro de 1886).

Visconde de Moreira Lima

Na estação, o Visconde de Moreira Lima e sua esposa encontraram com a família Imperial e os levaram de bondes até a Igreja de São Benedito, onde o monarca pode fazer sua oração. Dali saíram rapidamente para outra obra com a marca dos Moreira Lima, o Engenho Central, que era na época a menina dos olhos do Visconde. Ele mesmo, no empenho de mostrar à família Imperial o estado de progresso daquela fábrica e da cidade, tentou por via da Câmara aprovar a utilização dos bondes à tração animal ou a vapor, que levariam a comitiva da estação até à usina.

O projeto levou a um embate entre os vereadores, onde alguns eram contrários à ideia, pois acreditavam “ser inconveniente e desastroso bonde por tração à vapor dentro da Cidade” (Ata da Câmara de Lorena, 5 de outubro de 1886). Ficou decidido então que se votaria o projeto em separado: uma votação para a instalação da linha de bondes e outra para a definição do modelo, animada ou à vapor. Por fim, venceu o projeto da instalação dos bondes à tração animal, “podendo construir a linha que projeta mas unicamente com tração animada, contanto que não fique prejudicado o trânsito publico e devendo ser adotadas as medidas convenientes para evitar desastres” (Ata da Câmara de Lorena, 5 de outubro de 1886).

Mesmo assim, o Visconde não ficou satisfeito e dez dias depois entrou com novo requerimento na Câmara para que pudesse utilizar os bondes a vapor, na tentativa de mostrar a todos aqueles ilustres visitantes que a cidade de Lorena possuía o que de mais moderno existia na época em termos de transporte. A sessão da Câmara de Lorena então deferiu novamente o projeto, mas abriu uma exceção: “podendo na experiência e durante a estada dos Imperantes nesta Cidade adotar a tração a vapor” (Ata da Câmara de Lorena, 15 de outubro de 1886). Enfim satisfeito, o Visconde de Moreira Lima estava certo, pois a linha de bondes fez enorme sucesso entre os visitantes, sendo “positivamente, um dos números de maior sucesso nas festas grandiosas com que Lorena acolheu o grande Monarca” (RODRIGUES, 1942, p. 95).

Engenho Central de Lorena com Bonde à tração animal

Tanto d. Pedro II, quanto a Imperatriz, Thereza Cristina ficaram muito satisfeitos com o que viram e seguiram com a comitiva, em bondes especiais para a margem do rio Paraíba, de onde navegaram na lancha a vapor “Heppacare” por dois quilômetros rio acima.

Voltando à cidade, a família Imperial visitou a Câmara Municipal, onde demoraram bastante tempo por causa das indagações do Imperador. D. Pedro II pediu aos vereadores que mostrassem os padrões de pesos e medidas, comumente presente nas Câmaras daquela época, pois eram elas as responsáveis por certificar a unidade dos padrões métricos da localidade. Apresentados os padrões, o monarca “notou que eles estavam muito enferrujados e disse que esse facto causava-lhe desagradável impressão” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2).

Mesmo pegos de surpresa nesta ocasião, os vereadores também haviam preparado um evento que marcaria a história da cidade de Lorena. Seguindo o que já havia virado prática nas cidades do Vale do Paraíba fluminense, os vereadores lorenenses criaram um “Livro de Ouro”, destinado a colher assinaturas e recursos financeiros para a libertação dos escravos da cidade (EVANGELISTA, 1978, p. 173). O Livro deveria ser aberto com a assinatura de Sua Majestade Imperial e realmente o foi, como está na foto abaixo.

Livro de Ouro de Lorena

Seguindo o exemplo do Imperador, os principais nomes daquela viagem não só assinaram o livro como deixaram sua contribuição financeira para a libertação de alguns escravos de Lorena. D. Pedro II doou 500 mil réis, o conselheiro Antônio da Silva Prado deixou 100 mil réis, o Barão de Parnaíba, 50 mil réis e o Visconde de Paranaguá, 20 mil réis, somando-se ao todo cerca de 670 mil réis (Ata da Câmara de Lorena, 15 de outubro de 1886).

Às 6 horas foi servido um suntuoso banquete na residência do Visconde, onde se assentaram à mesa mais de trinta pessoas. Antes de iniciar o jantar, o conselheiro Antônio Prado levantou um brinde a família Vicente de Azevedo, que representada pelo dr. Pedro Vicente também saudou o ministro da agricultura e assim iniciou uma série de 22 brindes consecutivos, sendo dirigidos a pessoas ali presentes, políticos, até à imprensa e ao povo paulista. Às 7h30, d. Pedro II e d. Thereza Cristina foram assistir a um Te-Deum na igreja de São Benedito, retornando pelas ruas bem iluminadas às 8 horas para recepcionar a elite local. Durante a recepção, a Câmara Municipal foi em corporação entregar as duas cartas de alforria que haviam sido financiadas com dinheiro arrecadado pela comissão criada um mês antes. O Imperador então entregou as cartas a duas escravas escolhidas pela comissão da Câmara, segundo relato na ata da Câmara de 24 de outubro de 1886: “à vista do cabal desempenho, que deu a comissão nomeada pela Câmara, à tarefa que lhe foi conferida, não só promovendo a libertação de duas escravas cujas cartas foram entregues pelo nosso Augusto Soberano, que se declarou lisonjeiro pelo modo porque a Câmara solenizou sua honrosa visita a esta Cidade”.

Assim, às 5h55 do dia seguinte, o trem especial saiu de Lorena, deixando entre outros os ministros da Bolívia e da Argentina. Em Guaratinguetá, a estação estava toda enfeitada com arcos, folhagens e bandeiras. “O povo aglomerava-se na plataforma” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2). Ao descer do vagão, o Imperador foi recebido por autoridades políticas, pelo juiz e pelo vigário, que deu vivas à família Imperial, tudo ao som do Hino Nacional. Desta vez, o pedido da Imperatriz foi atendido e a comitiva seguiu de trem até à capela de Nossa Senhora Aparecida. (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2). Infelizmente não chegou até nós os relatos desse ilustre encontro com a imagem da santa.

Em Pindamonhangaba, a primeira notícia da visita da família Imperial foi publicada no jornal Tribuna do Norte, de 12 de setembro de 1886 (p. 3), chegando na cidade no dia 19 de outubro. O povo reuniu-se na plataforma para tentar avistar o Imperador, que ao som de “duas bandas de música – Santa Cruz e João Gomes, SS. MM. foram cumprimentados pelo juiz de direito” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2). A mesma estranheza ao ler que somente o juiz foi receber o monarca teve o jornal Tribuna do Norte (24 de outubro de 1886, p. 3), relatando que “si não fôra o Dr. Leão Velloso, nosso digno Juiz de Direito, não se encontrariam SS. MM. senão com os empregados da Estação”. Pela segunda vez, os titulares da cidade não fizeram questão de recepcionar um membro da família Imperial.

Barão de Tremembé

Desta forma, a comitiva chegou a Taubaté, onde de início iria parar apenas para almoçar, mas ao contrário de Pindamonhangaba, sendo bem recebida pelo então Barão de Tremembé, decidiu ficar mais tempo. Enquanto a banda de música Princesa Imperial tocava, ocorreu um fato inusitado e constrangedor para as autoridades taubateanas. Um perspicaz batedor de carteiras conseguiu furtar o relógio e a corrente de ouro do Marquês de Paranaguá, “afirmaram outros, entretanto, que o roubado fora o dr. Francisco Ribeiro de Moura Escobar, então delegado de polícia de Taubaté” (Correio do Vale do Paraíba, 28 de dezembro de 1945, p. 5).

O Barão de Tremembé ofereceu aos monarcas e comitiva um grandioso almoço. Ao entrar no palacete do Barão, duas meninas jogaram pétalas de rosas sobre Suas Majestades. Lá dentro, antes do almoço, o Imperador recebeu a comissão da colônia italiana que prosperava em Taubaté.

Terminado o almoço, o Barão de Tremembé levou o Imperador e a Imperatriz para visitarem a igreja e o Colégio do Bom Conselho, na época dirigido por irmãs de São José. As alunas do colégio cantaram o hino de saudação e os monarcas percorreram todo o estabelecimento, demorando-se mais do que o esperado (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2).

Saindo de lá, se dirigiram ao prédio da cadeia e Câmara, sendo recebidos pelos vereadores que estavam em posição de corporação. O Imperador entrou em cada cela e começou a interrogar os presos, fazendo diversas observações sobre a prisão subterrânea, quando se deparou com sete escravos. “Uma das pessoas que o acompanhavam tendo dito que aqueles escravos estavam presos por ordem dos seus senhores, os quais julgavam-se com direito de assim fazer, o Imperador acrescentou: ‘Em suas casas’” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2). Sobre o prédio da Câmara Municipal o achou muito velho e em mal estado, afinal o edifício havia sido construído em 1645 e tinha passado por poucas reformas. Novamente d. Pedro II pediu que lhe mostrassem os padrões de pesos e medidas, mas os vereadores não os encontraram, contrariando o Imperador.

Visitou o Hospital Santa Izabel, sendo recebido por Joaquim Vieira de Moura, então vice-provedor, onde percorreu todas as alas e enfermarias. Em uma das dependências, d. Pedro II “chamou a atenção do sr. Barão de Sabóia para uma preta que apresentava no rosto um enorme sarcoma tomando todo o maxilar superior” (Correio do Vale do Paraíba, 28 de dezembro de 1945, p. 5). Na saída, orou na capela de Santa Izabel, assinando o livro de visitas e deixando uma quantia de 100 mil réis para auxiliar a administração do hospital.

Deixaram o hospital e dirigiram-se ao convento Santa Clara, que na época tinha como guardião o padre Francisco Cosco. Como as atividades do convento estavam paradas há tempos, o Imperador “manifestou desejo de que se fizesse ali uma colônia orfanológica, sendo assim melhor aproveitados os terrenos em vasta área e a casa de vivenda” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2).

Capela do Pilar

Ao saber que havia na capela do Pilar um retrato antigo do frei Antônio de Santa Úrsula Rodovalho, d. Pedro II quis visitar a igreja. Chegando lá indagou aos que o acompanhavam: “’O que este homem faz aqui? Este foi um brasileiro ilustre, foi o confessor de minha avó’ – Responderam então a S. M. que a Igreja do Pilar fora construída por Timóteo Corrêa de Toledo, pai do bispo Rodovalho, ambos taubateanos” (Correio do Vale do Paraíba, 28 de dezembro de 1945, p. 5). Ao observar a pintura existente na capela do Pilar, lembrou que ela tratava-se de uma cópia da pintura original então presente no Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro; porém a cópia de Taubaté, datada de 1871, não agradou ao Imperador, que a achou defeituosa (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2).

A comitiva então seguiu para Tremembé para visitar a igreja do Senhor Bom Jesus, a fonte da água santa e as minas de xisto betuminoso. Na igreja o Imperador e a Imperatriz rezaram. Na fonte beberam a água santa, sendo seguidos pelas pessoas que os acompanhavam. Já na mina de xisto, mineral utilizado para produção de gás para a iluminação pública, d. Pedro II ficou bem interessado pelo material e solicitou que colhessem diversos fósseis ali encontrados para que posteriormente pudesse estudá-los.

Na manhã do dia 20 de outubro, partiu a comitiva Imperial rumo à Caçapava, levando no trem o dr. Falcão Filho, o dr. Paula Toledo e o Barão de Tremembé. Em Caçapava, o Imperador desceu na estação onde foi recepcionado em alas dos alunos das escolas públicas da cidade e pelas autoridades ali presentes.

Pela primeira vez, d. Pedro II pisava em solo da progressista cidade de São José dos Campos. A comitiva foi recebida pelos vereadores da Câmara Municipal e por outras autoridades da cidade. “Música, salvas de bombas, recepção entusiástica” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2). Antes de saírem do Vale do Paraíba rumo à capital da província, também fizeram rápida parada na cidade de Jacareí, onde o cerimonial de recepção foi o mesmo das cidades anteriores. “O dr. juiz de direito serviu café a Suas Majestades” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2).

O Imperador parece ter gostado da recepção feita pelo Barão de Tremembé em Taubaté, pois um mês depois, na viagem de volta à Corte, a comitiva Imperial também pernoitou na cidade. D. Pedro II e d. Thereza Cristina jantaram e dirigiram-se ao Teatro São João a convite do Barão, assistindo a uma peça dramática em suas honras. Às 8h32 da manhã do dia 19 de novembro, todas as autoridades locais, clero e grande quantidade de gente compareceram à última despedida aos monarcas.

D. Pedro II, Thereza Cristina, o Conde d’Eu e os demais ministros e titulares do Império saíam do Vale do Paraíba paulista, deixando para trás alguns poucos nobres sinceramente cativados pelo jogo de cena das visitas Imperiais, mas um séquito de cafeicultores escravocratas insatisfeitos, que nos dias de festa levantavam vivas ao Imperador, mas ao apagar das luzes reuniam-se em clubes republicanos.

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Jornais:

Correio Paulistano, 19 de outubro de 1886.
Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886.
Tribuna do Norte, de 12 de setembro de 1886.
Tribuna do Norte (24 de outubro de 1886.
Correio do Vale do Paraíba, 28 de dezembro de 1945.

Documentos avulsos:

Ata da Câmara de Lorena, 19 de setembro de 1886.
Ata da Câmara de Lorena, 29 de setembro de 1886.
Ata da Câmara de Lorena, 5 de outubro de 1886.
Ata da Câmara de Lorena, 15 de outubro de 1886.
ata da Câmara de Lorena, 24 de outubro de 1886.

Livros:

EVANGELISTA, J. G. Lorena no século XIX. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.

SOBRINHO, A. M. A civilização do café, 1820 – 1920. (Cap. XIII: Imperadores e príncipes no Vale). Ed. Brasiliense, 1978.

RODRIGUES, Gama. O Conde de Moreira Lima. São Paulo: IGB, 1942.

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