D. Pedro II enfrenta a crítica da imprensa taubateana

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1886: o último espetáculo do Imperador

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Caros amigos, tenho o prazer de trazer-lhes a última viagem de d. Pedro II ao Vale do Paraíba. São recortes dos principais acontecimentos dessa que foi a principal viagem do Imperador tentando apaziguar os ânimos dos cafeicultores escravocratas. Divirtam-se!

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A questão da abolição aliada à crescente força que os republicanos tinham adquirido no cenário político reforçava a necessidade do Imperador e da Imperatriz sair da Corte e tentar mais uma vez usar todo o aparato simbólico da monarquia para evitar que mais nobres da região valeparaibana deixassem a base de sustentação do Império. Seria não só a última viagem de d. Pedro II pelo Vale do Paraíba, mas também a que o Imperador mais se empenhou para agradar a todos nas cidades pelas quais passava. Era o tiro de misericórdia.

O esplêndido avanço tecnológico da segunda metade do século XIX auxiliou os jornalistas a publicarem com apenas um dia de diferença os detalhes minuciosos dessa última viagem de d. Pedro II pelo Vale do Paraíba. Por telegrama, o correspondente do jornal Correio Paulistano (19 de outubro de 1886, p. 2) relata a chegada do Imperador em solo valeparaibano: “estação da Cachoeira, 18 de Outubro, 12.30 da tarde. Há dez minutos chegou a esta estação o trem Imperial, que saíra da corte as 6 da manhã, sendo a viagem feita nas melhores condições”. A extensa comitiva contava com cerca de trinta pessoas, onde estavam a família Imperial, além de nomes importantes onde destacam-se dentre outros o pintor Almeida Júnior, o Barão de Parnaíba, então presidente da província de São Paulo, o conselheiro Antônio Prado, o dr. Cochrane, além de ministros da Bolívia e da Argentina. (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2). De Cachoeira, partiram para Lorena.

A ata da Câmara Municipal de Lorena de 19 de setembro de 1886 já determinava que “fique autorizado o sr. Presidente da Câmara a fazer as despesas precisas com concertos de ruas e praças e outros serviços, a fim de se preparar a Cidade para receber Sua Majestade, o Imperador”, porém colocava uma ressalva que até então não tinham aparecido nas demais visitas de membros da família Imperial: “devendo observar a maior economia possível nesses dispêndios” (Ata da Câmara de Lorena, 19 de setembro de 1886). Os tempos eram outros e a pompa de que tanto a monarquia necessitava já era vista como gasto que onerava os cofres públicos e não traziam tantos benefícios palpáveis para as decadentes finanças de Lorena.

“Os pontos principais de visitação, o palacete Moreira Lima, a igreja de São Benedito, foram iluminados a gás, especialmente, instalado para o acontecimento” (SOBRINHO, 1978, p. 105). Além disso, a Câmara Municipal solicitou à Companhia da Estrada de Ferro do Norte que pintasse e preparasse a estação de trem da cidade para a recepção do Imperador (Ata da Câmara de Lorena, 29 de setembro de 1886).

Visconde de Moreira Lima

Na estação, o Visconde de Moreira Lima e sua esposa encontraram com a família Imperial e os levaram de bondes até a Igreja de São Benedito, onde o monarca pode fazer sua oração. Dali saíram rapidamente para outra obra com a marca dos Moreira Lima, o Engenho Central, que era na época a menina dos olhos do Visconde. Ele mesmo, no empenho de mostrar à família Imperial o estado de progresso daquela fábrica e da cidade, tentou por via da Câmara aprovar a utilização dos bondes à tração animal ou a vapor, que levariam a comitiva da estação até à usina.

O projeto levou a um embate entre os vereadores, onde alguns eram contrários à ideia, pois acreditavam “ser inconveniente e desastroso bonde por tração à vapor dentro da Cidade” (Ata da Câmara de Lorena, 5 de outubro de 1886). Ficou decidido então que se votaria o projeto em separado: uma votação para a instalação da linha de bondes e outra para a definição do modelo, animada ou à vapor. Por fim, venceu o projeto da instalação dos bondes à tração animal, “podendo construir a linha que projeta mas unicamente com tração animada, contanto que não fique prejudicado o trânsito publico e devendo ser adotadas as medidas convenientes para evitar desastres” (Ata da Câmara de Lorena, 5 de outubro de 1886).

Mesmo assim, o Visconde não ficou satisfeito e dez dias depois entrou com novo requerimento na Câmara para que pudesse utilizar os bondes a vapor, na tentativa de mostrar a todos aqueles ilustres visitantes que a cidade de Lorena possuía o que de mais moderno existia na época em termos de transporte. A sessão da Câmara de Lorena então deferiu novamente o projeto, mas abriu uma exceção: “podendo na experiência e durante a estada dos Imperantes nesta Cidade adotar a tração a vapor” (Ata da Câmara de Lorena, 15 de outubro de 1886). Enfim satisfeito, o Visconde de Moreira Lima estava certo, pois a linha de bondes fez enorme sucesso entre os visitantes, sendo “positivamente, um dos números de maior sucesso nas festas grandiosas com que Lorena acolheu o grande Monarca” (RODRIGUES, 1942, p. 95).

Engenho Central de Lorena com Bonde à tração animal

Tanto d. Pedro II, quanto a Imperatriz, Thereza Cristina ficaram muito satisfeitos com o que viram e seguiram com a comitiva, em bondes especiais para a margem do rio Paraíba, de onde navegaram na lancha a vapor “Heppacare” por dois quilômetros rio acima.

Voltando à cidade, a família Imperial visitou a Câmara Municipal, onde demoraram bastante tempo por causa das indagações do Imperador. D. Pedro II pediu aos vereadores que mostrassem os padrões de pesos e medidas, comumente presente nas Câmaras daquela época, pois eram elas as responsáveis por certificar a unidade dos padrões métricos da localidade. Apresentados os padrões, o monarca “notou que eles estavam muito enferrujados e disse que esse facto causava-lhe desagradável impressão” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2).

Mesmo pegos de surpresa nesta ocasião, os vereadores também haviam preparado um evento que marcaria a história da cidade de Lorena. Seguindo o que já havia virado prática nas cidades do Vale do Paraíba fluminense, os vereadores lorenenses criaram um “Livro de Ouro”, destinado a colher assinaturas e recursos financeiros para a libertação dos escravos da cidade (EVANGELISTA, 1978, p. 173). O Livro deveria ser aberto com a assinatura de Sua Majestade Imperial e realmente o foi, como está na foto abaixo.

Livro de Ouro de Lorena

Seguindo o exemplo do Imperador, os principais nomes daquela viagem não só assinaram o livro como deixaram sua contribuição financeira para a libertação de alguns escravos de Lorena. D. Pedro II doou 500 mil réis, o conselheiro Antônio da Silva Prado deixou 100 mil réis, o Barão de Parnaíba, 50 mil réis e o Visconde de Paranaguá, 20 mil réis, somando-se ao todo cerca de 670 mil réis (Ata da Câmara de Lorena, 15 de outubro de 1886).

Às 6 horas foi servido um suntuoso banquete na residência do Visconde, onde se assentaram à mesa mais de trinta pessoas. Antes de iniciar o jantar, o conselheiro Antônio Prado levantou um brinde a família Vicente de Azevedo, que representada pelo dr. Pedro Vicente também saudou o ministro da agricultura e assim iniciou uma série de 22 brindes consecutivos, sendo dirigidos a pessoas ali presentes, políticos, até à imprensa e ao povo paulista. Às 7h30, d. Pedro II e d. Thereza Cristina foram assistir a um Te-Deum na igreja de São Benedito, retornando pelas ruas bem iluminadas às 8 horas para recepcionar a elite local. Durante a recepção, a Câmara Municipal foi em corporação entregar as duas cartas de alforria que haviam sido financiadas com dinheiro arrecadado pela comissão criada um mês antes. O Imperador então entregou as cartas a duas escravas escolhidas pela comissão da Câmara, segundo relato na ata da Câmara de 24 de outubro de 1886: “à vista do cabal desempenho, que deu a comissão nomeada pela Câmara, à tarefa que lhe foi conferida, não só promovendo a libertação de duas escravas cujas cartas foram entregues pelo nosso Augusto Soberano, que se declarou lisonjeiro pelo modo porque a Câmara solenizou sua honrosa visita a esta Cidade”.

Assim, às 5h55 do dia seguinte, o trem especial saiu de Lorena, deixando entre outros os ministros da Bolívia e da Argentina. Em Guaratinguetá, a estação estava toda enfeitada com arcos, folhagens e bandeiras. “O povo aglomerava-se na plataforma” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2). Ao descer do vagão, o Imperador foi recebido por autoridades políticas, pelo juiz e pelo vigário, que deu vivas à família Imperial, tudo ao som do Hino Nacional. Desta vez, o pedido da Imperatriz foi atendido e a comitiva seguiu de trem até à capela de Nossa Senhora Aparecida. (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2). Infelizmente não chegou até nós os relatos desse ilustre encontro com a imagem da santa.

Em Pindamonhangaba, a primeira notícia da visita da família Imperial foi publicada no jornal Tribuna do Norte, de 12 de setembro de 1886 (p. 3), chegando na cidade no dia 19 de outubro. O povo reuniu-se na plataforma para tentar avistar o Imperador, que ao som de “duas bandas de música – Santa Cruz e João Gomes, SS. MM. foram cumprimentados pelo juiz de direito” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2). A mesma estranheza ao ler que somente o juiz foi receber o monarca teve o jornal Tribuna do Norte (24 de outubro de 1886, p. 3), relatando que “si não fôra o Dr. Leão Velloso, nosso digno Juiz de Direito, não se encontrariam SS. MM. senão com os empregados da Estação”. Pela segunda vez, os titulares da cidade não fizeram questão de recepcionar um membro da família Imperial.

Barão de Tremembé

Desta forma, a comitiva chegou a Taubaté, onde de início iria parar apenas para almoçar, mas ao contrário de Pindamonhangaba, sendo bem recebida pelo então Barão de Tremembé, decidiu ficar mais tempo. Enquanto a banda de música Princesa Imperial tocava, ocorreu um fato inusitado e constrangedor para as autoridades taubateanas. Um perspicaz batedor de carteiras conseguiu furtar o relógio e a corrente de ouro do Marquês de Paranaguá, “afirmaram outros, entretanto, que o roubado fora o dr. Francisco Ribeiro de Moura Escobar, então delegado de polícia de Taubaté” (Correio do Vale do Paraíba, 28 de dezembro de 1945, p. 5).

O Barão de Tremembé ofereceu aos monarcas e comitiva um grandioso almoço. Ao entrar no palacete do Barão, duas meninas jogaram pétalas de rosas sobre Suas Majestades. Lá dentro, antes do almoço, o Imperador recebeu a comissão da colônia italiana que prosperava em Taubaté.

Terminado o almoço, o Barão de Tremembé levou o Imperador e a Imperatriz para visitarem a igreja e o Colégio do Bom Conselho, na época dirigido por irmãs de São José. As alunas do colégio cantaram o hino de saudação e os monarcas percorreram todo o estabelecimento, demorando-se mais do que o esperado (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2).

Saindo de lá, se dirigiram ao prédio da cadeia e Câmara, sendo recebidos pelos vereadores que estavam em posição de corporação. O Imperador entrou em cada cela e começou a interrogar os presos, fazendo diversas observações sobre a prisão subterrânea, quando se deparou com sete escravos. “Uma das pessoas que o acompanhavam tendo dito que aqueles escravos estavam presos por ordem dos seus senhores, os quais julgavam-se com direito de assim fazer, o Imperador acrescentou: ‘Em suas casas’” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2). Sobre o prédio da Câmara Municipal o achou muito velho e em mal estado, afinal o edifício havia sido construído em 1645 e tinha passado por poucas reformas. Novamente d. Pedro II pediu que lhe mostrassem os padrões de pesos e medidas, mas os vereadores não os encontraram, contrariando o Imperador.

Visitou o Hospital Santa Izabel, sendo recebido por Joaquim Vieira de Moura, então vice-provedor, onde percorreu todas as alas e enfermarias. Em uma das dependências, d. Pedro II “chamou a atenção do sr. Barão de Sabóia para uma preta que apresentava no rosto um enorme sarcoma tomando todo o maxilar superior” (Correio do Vale do Paraíba, 28 de dezembro de 1945, p. 5). Na saída, orou na capela de Santa Izabel, assinando o livro de visitas e deixando uma quantia de 100 mil réis para auxiliar a administração do hospital.

Deixaram o hospital e dirigiram-se ao convento Santa Clara, que na época tinha como guardião o padre Francisco Cosco. Como as atividades do convento estavam paradas há tempos, o Imperador “manifestou desejo de que se fizesse ali uma colônia orfanológica, sendo assim melhor aproveitados os terrenos em vasta área e a casa de vivenda” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2).

Capela do Pilar

Ao saber que havia na capela do Pilar um retrato antigo do frei Antônio de Santa Úrsula Rodovalho, d. Pedro II quis visitar a igreja. Chegando lá indagou aos que o acompanhavam: “’O que este homem faz aqui? Este foi um brasileiro ilustre, foi o confessor de minha avó’ – Responderam então a S. M. que a Igreja do Pilar fora construída por Timóteo Corrêa de Toledo, pai do bispo Rodovalho, ambos taubateanos” (Correio do Vale do Paraíba, 28 de dezembro de 1945, p. 5). Ao observar a pintura existente na capela do Pilar, lembrou que ela tratava-se de uma cópia da pintura original então presente no Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro; porém a cópia de Taubaté, datada de 1871, não agradou ao Imperador, que a achou defeituosa (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2).

A comitiva então seguiu para Tremembé para visitar a igreja do Senhor Bom Jesus, a fonte da água santa e as minas de xisto betuminoso. Na igreja o Imperador e a Imperatriz rezaram. Na fonte beberam a água santa, sendo seguidos pelas pessoas que os acompanhavam. Já na mina de xisto, mineral utilizado para produção de gás para a iluminação pública, d. Pedro II ficou bem interessado pelo material e solicitou que colhessem diversos fósseis ali encontrados para que posteriormente pudesse estudá-los.

Na manhã do dia 20 de outubro, partiu a comitiva Imperial rumo à Caçapava, levando no trem o dr. Falcão Filho, o dr. Paula Toledo e o Barão de Tremembé. Em Caçapava, o Imperador desceu na estação onde foi recepcionado em alas dos alunos das escolas públicas da cidade e pelas autoridades ali presentes.

Pela primeira vez, d. Pedro II pisava em solo da progressista cidade de São José dos Campos. A comitiva foi recebida pelos vereadores da Câmara Municipal e por outras autoridades da cidade. “Música, salvas de bombas, recepção entusiástica” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2). Antes de saírem do Vale do Paraíba rumo à capital da província, também fizeram rápida parada na cidade de Jacareí, onde o cerimonial de recepção foi o mesmo das cidades anteriores. “O dr. juiz de direito serviu café a Suas Majestades” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2).

O Imperador parece ter gostado da recepção feita pelo Barão de Tremembé em Taubaté, pois um mês depois, na viagem de volta à Corte, a comitiva Imperial também pernoitou na cidade. D. Pedro II e d. Thereza Cristina jantaram e dirigiram-se ao Teatro São João a convite do Barão, assistindo a uma peça dramática em suas honras. Às 8h32 da manhã do dia 19 de novembro, todas as autoridades locais, clero e grande quantidade de gente compareceram à última despedida aos monarcas.

D. Pedro II, Thereza Cristina, o Conde d’Eu e os demais ministros e titulares do Império saíam do Vale do Paraíba paulista, deixando para trás alguns poucos nobres sinceramente cativados pelo jogo de cena das visitas Imperiais, mas um séquito de cafeicultores escravocratas insatisfeitos, que nos dias de festa levantavam vivas ao Imperador, mas ao apagar das luzes reuniam-se em clubes republicanos.

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Jornais:

Correio Paulistano, 19 de outubro de 1886.
Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886.
Tribuna do Norte, de 12 de setembro de 1886.
Tribuna do Norte (24 de outubro de 1886.
Correio do Vale do Paraíba, 28 de dezembro de 1945.

Documentos avulsos:

Ata da Câmara de Lorena, 19 de setembro de 1886.
Ata da Câmara de Lorena, 29 de setembro de 1886.
Ata da Câmara de Lorena, 5 de outubro de 1886.
Ata da Câmara de Lorena, 15 de outubro de 1886.
ata da Câmara de Lorena, 24 de outubro de 1886.

Livros:

EVANGELISTA, J. G. Lorena no século XIX. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.

SOBRINHO, A. M. A civilização do café, 1820 – 1920. (Cap. XIII: Imperadores e príncipes no Vale). Ed. Brasiliense, 1978.

RODRIGUES, Gama. O Conde de Moreira Lima. São Paulo: IGB, 1942.

1878: uma viagem expressa pelos trilhos do trem

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Gostaria de relembrar que trago aqui apenas trechos da minha monografia, dando destaques aos principais acontecimentos e breves análises sobre a viagem de d. Pedro II em 1878 pelo Vale do Paraíba. Divirtam-se!

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1878 era ano de eleições nas diversas municipalidades do Império e os republicanos começavam a tomar corpo com a vitória de alguns candidatos. A aprovação da Lei do Ventre Livre em 1871 fomentou a ira dos cafeicultores das províncias do sul e, principalmente dos escravocratas valeparaibanos.

A prova de que os republicanos já incomodavam muitos setores da política está no jornal Gazeta de Taubaté (11 de agosto de 1878, p. 2) que relata: “a força pública de Jacarehy tomou o largo da Matriz, fez exercício de fogo, debandou o povo e tomou o paço municipal. Ouviam-se gritos de morram os republicanos!” e complementa mais à frente “os republicanos venceram nas Araras. Os republicanos e os conservadores na Limeira”. Há vários relatos de abusos de poder, brigas e uso necessário da força pela polícia para conter os desgostosos. “Em Jacarehy a força de linha foi obrigada a retirar-se. Houve uma liga entre fazendeiros. Os republicanos triunfam” (Gazeta de Taubaté, 11 de agosto de 1878, p. 2). O poder da monarquia começava a ser questionado não somente pelos primeiros republicanos, mas também pelos mais radicais do Partido Liberal.

Sabendo da importância que a presença de sua figura iria causar nas elites valeparaibanas é que d. Pedro II refez o caminho percorrido pelo seu genro um ano antes, “inaugurando” novamente cada estação de trem das cidades da região. Tratava-se de uma viagem expressa, com pequeno espaço para as cerimônias pomposas e para os encontros demorados com os políticos locais – agradando ao Imperador que já estava cansado desse tipo de ritual pomposo e bajulador.

Às 14h40, d. Pedro II, a Imperatriz Thereza Cristina e toda a comitiva chegaram à Guaratinguetá. Após breve recepção na estação de trem, seguiram de carruagem até o palacete do Visconde de Guaratinguetá, “onde lhes foram servido jantar, durante o qual a banda de música tocou” (MOURA, 2002, p. 112). Dali visitaram a igreja Matriz e a Santa Casa de Misericórdia (Diário do Norte, 11 de setembro de 1878, p. 2). Era desejo da Imperatriz uma visita à capela de Nossa Senhora Aparecida, mas foi negado por d. Pedro II que, talvez pela necessidade de logo embarcar para São Paulo, furtou-se de conhecer a capela tão visitada por sua filha. Em carta ao amigo Conde d’Eu, o Visconde de Guaratinguetá transpassa sua decepção com a negativa do Imperador em visitar a capela, que estava toda preparada para a ocasião. […] Eu senti que S. Majestade lá [na capela de Nsa. Sra. Aparecida] não fosse para ver com o estado de adiantamento em que vai aquela importante obra […]. Eu tinha mandado armar a Igreja, e tudo estava disposto para a recepção imperial (1878 apud MOURA 2002, p. 127).

Partiram dali para Pindamonhangaba. Na manhã seguinte visitaram alguns prédios públicos e foram até o palacete do Barão da Palmeira para contemplarem a vista do “soberbo Vale do Paraíba e a majestosa Serra da Mantiqueira” (MARCONDES, 1922, p. 35). O convite do Barão da Palmeira não se restringia apenas para que a família Imperial se deslumbrasse com a vista da região. Para a ocasião, ele havia mandado remodelar todo o seu palacete, trazendo um arquiteto e um decorador da França, além de adquirir vários objetos de decoração e utensílios domésticos de alto valor financeiro e artístico.

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Em Taubaté, o jornal Gazeta de Taubaté (11 de agosto de 1878, p. 3) traz a notícia da chegada do monarca de forma bem diferente daquela feita quando a Princesa Isabel pisou em solo taubateano. Usando da sátira, o jornal flerta com uma fina ironia à figura intelectual do Imperador e também faz duras críticas à pompa e à ritualística empregadas na recepção do monarca, afirmando que enquanto as lavouras da região carecem de investimento, d. Pedro II e as elites da região estão mais preocupadas com os “dias de gala” que a monarquia irá oferecer na cidade. “E o que é mais notável é – que os empregados públicos são os que mais lucram com a vinda da Majestade: que o diga cá o redator da história, em?” (Gazeta de Taubaté, 11 de agosto de 1878, p. 3). O articulista continua sua sátira às tantas pompas e cerimônias preparadas pelas cidades que recepcionaram d. Pedro II na sua rápida passagem, fazendo uma pequena poesia:

Já lá vai um dia de grande gala.

Em Lorena, a mesma cantilena!

Em Guaratinguetá…ta…ta…

Em Pindamonhangaba, o mesmo doce de goiaba.

Em Taubaté, o mesmo rapapé.

Em Caçapava… nada caçava… (Gazeta de Taubaté, 11 de agosto de 1878, p. 3).

Em 2 de outubro retornaram a Taubaté, chegando ás 10 horas da manhã e permanecendo por um período mais longo que na ida. A estação estava devidamente enfeitada com flâmulas, bandeiras e flores, além da presença do “Sr. Dr. presidente da câmara municipal, autoridades civis, clero e, numerosamente, povo em número superior a 1000 pessoas” (Gazeta de Taubaté, 6 de outubro de 1878, p. 2).
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Novamente o redator do Gazeta de Taubaté faz uma análise muito perspicaz sobre a importância que todo o jogo teatral de poder da monarquia, com sua pompa e circunstância, tem na formação da posição política de muitos cidadãos, sejam eles nobres ou não:

Não desgosto dessas manifestações, não senhores. Ao contrário, regala-me ver o povo como as cruzetas dos ventos que se movem ao menor sopro. Porem não gosto de ver o servilismo em ação quando se trata de certos, independentes e determinados caracteres que bem podiam abdicar da sem cerimonia com que se manifestam – hoje republicanos, amanhã socialistas, mais tarde liberal, conservador… etc. porque um cartório… uma barreira… até mesmo um jantar, fascina-os de tal modo que seria um crime de leso-interesse declinar do plano a que se inclinam” (Gazeta de Taubaté, 12 de outubro de 1878, p. 3).

As pompas da monarquia pareciam encantar menos aos olhos e desagradar mais à razão dos descontentes com o regime nas cidades valeparaibanas.


Livros:

MARCONDES, A. Pindamonhangaba através de dois e meio séculos. São Paulo: Tip. Paulista, 1922.

MOURA, C. E. M. O Visconde de Guaratinguetá: Um Titular do Café no Vale do Paraíba. São Paulo: Studio Nobel, 2002.

Jornais:

Diário do Norte, 11 de setembro de 1878.

Gazeta de Taubaté, 11 de agosto de 1878.

Gazeta de Taubaté, 6 de outubro de 1878.

Gazeta de Taubaté, 12 de outubro de 1878.

Documentos avulsos:

Arquivo da Casa Imperial do Brasil, Doc. 8192, de 12 de outubro de 1878.

Apresentação da monografia

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Caros amigos,

Acabo de voltar de Taubaté, onde defendi minha monografia perante a banca composta pelos professores Isnard Albuquerque Câmara Neto, Maria Januária Vilela Santos e pela minha orientadora Maria Fátima de Melo Toledo.

É com grata satisfação que anuncio que minha monografia tirou 10, com louvor! Abaixo algumas fotos.

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Agradeço a todos meus familiares, amigos e pessoas que conheci durante esse 1 ano e meio de pesquisa e que me ajudaram muito para que eu pudesse levar esse 10 para casa!

Apresentação do trabalho

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Para os interessados, segue a data e local da apresentação desse meu trabalho de conclusão de curso:

Dia: 09 de dezembro

Horas: 19h00

Local: Dep. Ciências Sociais e Letras UNITAU – R. Visconde do Rio Branco, 22, Taubaté – SP

Todos estão convidados(as)!!

Última estação: Arquivo do Estado de São Paulo

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Bem amigos, finalmente estamos nos finalmentes. Amanhã entrego minha monografia e começo a me preparar para minha defesa na banca. Além da minha orientadora, a prof. Drª. Maria Fátima de Melo Toledo, estarão lá os dois professores que convidei para serem avaliadores do meu trabalho: prof. Dr. Isnard de Albuquerque Câmara Neto e a prof. Drª. Maria Januária Vilela Santos.

Nos próximos posts, vou colocar trechos das histórias das viagens de d. Pedro II e da Princesa Isabel pelo Vale do Paraíba. Histórias que coletei ao longo das minhas pesquisas nos empoeirados arquivos da região.

Bom, hoje gostaria de contar o último arquivo que passei: o Arquivo do Estado de São Paulo. Nos meus planos iniciais, eu não iria ao Arquivo do Estado, mas quando acabei de visitar os arquivos aqui da região, analisei as tantas peças do quebra-cabeça que tinha pesquisado ao longo dos meses e vi que ainda faltavam algumas peças. Primeiramente, pensei em ir ao Rio de Janeiro novamente para pesquisar nas edições do Jornal do Commercio,  na época o melhor e mais abrangente jornal da Corte. Mas, devido ao tempo curto que teria e também à escassez de dinheiro em que eu me encontro, optei por uma alternativa mais barata. Aliás, fazer pesquisa sem o auxílio de bolsa e sendo estagiário é algo desafiador.

O acervo de jornais do Arquivo do Estado é fenomenal! Possui jornais desde os primórdios da imprensa no Brasil, com edições próximas aos primeiros anos do Brasil independente. Minha pesquisa se baseou nos jornais do período entre 1846 a 1889. Obviamente que comecei pelos jornais dos anos de 1868, 1878, 1884 e 1886, quando d. Pedro II e a Princesa Isabel viajaram pelo Vale. Infelizmente não deu tempo de pesquisar nos demais jornais de outras datas.

Em todas as datas encontrei vastas informações. Em 1868 e, principalmente em 1886 haviam belíssimas descrições detalhadas das viagens dos Imperantes pela região. Com o avanço da tecnologia, proporcionada pela 2ª Revolução Industrial, os jornalistas se comunicavam com as sedes dos jornais ou por telégrafo, ou pelo telegrama que viajava todos os dias pelos trens. Desta forma, com a diferença de apenas um dia, o jornal Correio Paulistano publicava o que havia acontecido nas visitas do Imperador. O Correio Paulistano está para São Paulo do século XIX, assim como o Jornal do Commercio está para o Rio de Janeiro do mesmo período.

Deixarei para os próximos posts o destaque de alguns acontecimentos pitorescos dessas viagens, mas trago aqui em primeira mão o menu do jantar servido em Lorena pelo então Visconde de Moreira Lima para recepcionar d. Pedro II e a Imperatriz Thereza Cristina em 1886. A tradução do francês para o português é da minha irmã, Naiara Santos. Deliciem-se!

ORIGINAL

TRADUÇÃO

Potages

Creme de volaille aux pointes d’Asparge

Consomné printaimier

 

Hors-d’oeuvre

Rissoles a la Perigord

Croustades a la Montglas

 

Relevés

 

Garoupa sauce écrevisses

Filet aux pommes de terre

 

Entrées

 

Gatueax à la Napolitaine

Còtelettes d’agneau aux petits poix

 

Piéces froides

Mayonnaise de hommard à la gelèe

 

Aspic1 de fois gras

Funch a la Imperiale

 

Dinde à la Brésilliene

Jambon d’York et historié

 

Entremets

Asperges sauce Hollaise

Pudding a la Diplomate

Gelée fouettée

Bavaroise a la Vanille

Fromage glacé

 

Fruits de la saison

 

Dessert Assorti

 

Cafée cognac et liqueurs

Sopas

Creme de frango com aspargos

Consumir primeiramente

 

Aperitivo

Rissoles à moda Perigord

Crisps à Montglas

 

Discursos (ou brindes)

 

Garoupa com molho de lagosta

Filé com maçãs da terra

 

Entradas

 

Bolos napolitanos

Costelas de cordeiro com ervilhas

 

Saladas

Maionese com pinças de crustáceo gelada

 

“Foie gras” significa “fígado gordo”2

Erva-doce à moda Imperial

 

Perú à moda brasileira

Presunto de York e “conversas”

 

Sobremesas

Aspargos ao molho apimentado

Pudim à Diplomata (pudim de pão)

Chantily gelado

“Creme” de baunilha

Pudim de queijo gelado

 

Frutas da estação

 

“Docinho de saída”

 

Café, conhaque e licor

 

1 O Aspic liquido, é usado em geral na culinária, na preparação de musses e terrines, e também para dar brilho às carnes e aves. Faz-se adicionando gelatina ao consomê, que pode ser cortado em formas decorativas para guarnição.

2 É o fígado de um pato ou ganso super-alimentado. Junto com as trufas, o foie gras é considerado uma das maiores iguarias da culinária francesa.

Lá nas Areias…

1 Comentário

Estive em Areias, cidade do Vale Histórico, próxima a Bananal, São José do Barreiro, Arapeí e Silveiras, todas com um passado glorioso no período do café. Os nobres cafeicultores mais ricos lá moravam, lá plantavam café, lá escravizarão muitos negros cativos e lá ganhavam muito dinheiro. Em Bananal chegou a circular moeda própria, cunhada pelo poderoso Manoel de Aguiar Valim, o barão de Aguiar Valim.

Em Areias estava atrás das descrições sobre as tantas visitas de d. Pedro II e da Princesa Isabel na região. Muita gente fala que houve, mas há poucos documentos que realmente comprovem essas visitas. Que elas aconteceram eu não tenho dúvida, afinal a região se localiza na divisa com o Rio de Janeiro e possuía muitas ligações com a poderosa aristocracia do Vale fluminense. As cidades do Vale Histórico eram tidas como um refúgio dos nobres fluminenses. Inclusive os relatos orais que chegou até nós descrevem que as visitas do Imperador e da Princesa às cidades de Areias e Bananal sempre foram de cunho particular, para participar de saraus, bailes e encontros com cafeicultores fluminenses e paulistas. Nada muito oficial. O que mais gostaria de encontrar eram os detalhes do baile que a Princesa Isabel deu em 1888 em Areias para todos os nobres cafeicultores (e escravocratas) da região, em comemoração à libertação dos escravos.

Essa falta de oficialidade é que dificultou em muito encontrar documentos, jornais ou atas de câmara citando tais ilustres visitas. Na Casa de Cultura de Areias, bela residência no centro da cidade, onde já foi um cartório que Monteiro Lobato trabalhou e escreveu seu livro “Cidades Mortas”, funciona atualmente um museu e o arquivo municipal. Aliás, percebi bem porque Monteiro Lobato esteve entediado quando trabalhava em Areias. Durante todo o dia que estive lá, devo ter avistado cerca de 30 pessoas ao todo. A cidade é muito bonita, mas bem vazia, mais parecendo cenário de novela das 6 da Globo.

O Arquivo está em excelentes condições. Os documentos cartorários encontram-se bem organizados em pastas e prateleiras, por data e assunto. Porém, os demais tipos de documentos ainda precisam de melhor acondicionamento e organização. Há 2 estantes com muitos documentos policiais do início do século XX, pedaços de livros de registro sanitário, muitas cadernetas escolares e inclusive pedaços das atas da Câmara Municipal de Areias do século XIX. Lá, não encontrei nenhuma referência às visitas dos Imperantes na cidade.

Pesquisei também nos jornais. Há dois livros com todas as edições do jornal “O Mosquito” de 1872 e 1873. Para minha decepção, não há mais jornais de outros anos. Neles, com certeza encontraria pelo menos citações das passagens do monarca e de sua filha pela cidade, mas o tempo levou esses preciosos documentos.

O que essas cidades do Vale Histórico têm de mais rica é a sua história. Foram o primeiro caminho entre a Corte e a capital da província de São Paulo. Por lá, passou d. Pedro I rumo à Independência e lá se hospedou o segundo Imperador e a Princesa Imperial. Muita riqueza foi produzida nas fazendas da região, mas poucas sobreviveram até os dias de hoje. Perdeu-se muito da história daquele local, tanto em documentos como os jornais, quanto do belíssimo patrimônio arquitetônico. E a tradição oral, que ainda carrega consigo alguns resquícios fantásticos da história dos poderosos barões daquelas terras está se esvaindo como a memória que se acaba com o tempo. Algo precisa ser feito por lá ou aquelas cidades estarão fadadas ao destino cruel de Monteiro Lobato.

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