1884: uma Princesa malvista

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Após as festas de fim de ano e a correria do começo de 2012, trago mais uma das viagens realizadas por d. Pedro II e pela Princesa Isabel às cidades do Vale do Paraíba paulista. Hoje, publico trechos da viagem feita pela Princesa Isabel em 1884. Espero que gostem!

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A década de 1880 foi composta por anos bem difíceis para a monarquia brasileira. Pressões de vários lados surgiam dia após dia. Os abolicionistas, já em grande número, almejavam uma posição firme da família Imperial contra a questão da escravidão. Por outro lado, os cafeicultores do sudeste, principalmente os conservadores da região do Vale do Paraíba fluminense e paulista já estavam há tempos arrepiados com a ideia da monarquia cortar sua fonte de mão-de-obra. Grande parte desses fazendeiros tinham em seus escravos a única fonte de riqueza. “Numa relação de hipotecas de 1883, observa-se que o valor do escravo chega a representar 80% e até 90% do valor da fazenda, havendo regiões em que supera o valor das terras, como, por exemplo, em Sapucaia, Barra de São João e Taubaté” (VIOTTI, 1997, p. 263). Como esperar que esses cafeicultores escravocratas fossem simpáticos às causas abolicionistas defendidas pela legítima representante do Império brasileiro?

Para tentar apaziguar os ânimos dos liberais, dos republicanos que ganhavam espaço e principalmente dos cafeicultores descontentes é que a Princesa Isabel e d. Pedro II dedicaram duas viagens oficiais (1884 e 1886, respectivamente) à região do Vale do Paraíba paulista.

Princesa Isabel, Conde D’Eu e filhos (1885)

Em 1884, a princesa e o Conde d’Eu organizaram uma estratégica visita às “províncias do Sul”, como eram chamadas São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande. Em São Paulo, visitariam Lorena e fariam rápidas paradas nas demais cidades do Vale paulista, dirigindo-se à capital e à região de Campinas.

Em sessão extraordinária de 22 de setembro de 1884, os vereadores lorenenses aprovaram uma série de medidas para o embelezamento da cidade, visando a inauguração do Engenho Central, que oportunamente ocorreria na presença dos príncipes Imperiais (Ata da Câmara de Lorena, 22 de setembro de 1884).

Com a cidade preparada, a Princesa Isabel chegou a Lorena com o Conde d’Eu e seus filhos no dia 5 de novembro, às 2h30 da tarde (Correio Paulistano, 6 de novembro de 1884, p. 2). Nas cartas que enviou para seu pai (reunidas em forma de diário pelo escritor Ricardo Daunt) a princesa reclama ao chegar na estação de Lorena: “chegada a Lorena, às 2 horas e meia, com meus olhos ardendo desesperadamente, por causa do carvão” (DAUNT, 1957, p. 26). O desconforto era causado não só pela fumaça emitida pela locomotiva, mas também pela poeira que a estrada de ferro levantava devido ao fato de ainda não estar empedrada (DAUNT, 1957, p. 51).

Conde de Moreira Lima

Ainda na estação, o Visconde de Moreira Lima os aguardava com duas carruagens prontas para levá-los ao seu palacete, onde seriam hospedados. Às 7 horas da noite foi servido um jantar para todos os convidados. Poucos titulares da região fizeram-se presentes no evento; dentre eles estavam os Viscondes da Palmeira, a Baronesa de Paraibuna, o Barão de Romeiro, a Viscondessa de Guaratinguetá, a Viscondessa de Pindamonhangaba e o chefe do Partido Liberal, dr. Manoel Marcondes de Moura e Costa (DAUNT, 1957, p. 52).

No dia seguinte, os príncipes visitaram a recém-construída Igreja de São Benedito, erguida graças aos esforços e dinheiro do Visconde de Moreira Lima. Dali seguiram de bondinho de tração animal para o maior empreendimento industrial do Vale do Paraíba paulista àquela época: o Engenho Central de Lorena. Todo financiado e construído pela família Moreira Lima, o Engenho possuía vapores fluviais e ramal ferroviário próprios, chamando a atenção e o interesse do Conde d’Eu (SOBRINHO, 1978, p. 104). Novamente, a Princesa Isabel relata em suas cartas a d. Pedro II a passagem pelo Engenho do Visconde: “visita ao Engenho Central, muito interessante. O Pedro seguiu todo o processo, com o maior interesse” (DAUNT, 1957, p. 26).

Engenho Central de Lorena

Aparentemente tudo ocorreu na mais perfeita harmonia e os príncipes foram muito bem recebidos. Porém, quando se apagam as luzes da festa, acendem-se o fogo das más línguas. A imagem do casal de príncipes já estava bem arranhada devido aos conflitos de uma sociedade escravocrata que não via com bons olhos as declarações de apoio da Princesa Isabel aos abolicionistas. Nessa última visita da Princesa Isabel, a futura Baronesa de Santa Eulália, irmã do então Visconde de Moreira Lima, escrevendo a uma de suas colegas sobre as festividades de recepção ao casal de príncipes, relatou: “eu não faço parte e nem tomo parte em nada, porque seu Pai não gosta da Princesa” (AZEVEDO, 1962, p. 38), deixando claro sua indisposição em fazer parte daquele teatro armado pelo irmão. Evangelista (1978, p. 179) descreve que “muitas das meninas das melhores famílias não jogaram pétalas de rosa no casal, quando chegou ao palacete, e muitas senhoras não participaram nem do jantar de gala, nem do concerto e nem do baile na residência do Dr. Teófilo Braga”. Se em 1868, os dias em que os príncipes permaneceram em Lorena foram extremamente concorridos, em 1884 a Princesa Imperial e seu Augusto Esposo pareciam não mais atrair tanta gente.

Coroa doada pela Princesa Isabel

Desta forma, ainda no dia 6 de novembro, a comitiva Imperial deixou a cidade de Lorena, rumo à Guaratinguetá. A breve parada nesta cidade tinha objetivo bem específico, conforme observado pela própria Princesa Isabel: “parada em Guaratinguetá, parada para subir à Capela de Nossa Senhora Aparecida, fazer oração” (DAUNT, 1957, p. 26). Nesta ocasião, segundo a crônica publicada no jornal Santuário de Aparecida (19 de novembro de 1921, p. 5) a princesa voltou à igreja, junto com o marido e seus três filhos para agradecer à santa por ter atendido seu pedido feito em 1868: o de engravidar do herdeiro do trono brasileiro. Se em 1868, a devota princesa doou um majestoso manto, dessa vez a imagem ganhava uma rica coroa de ouro, a mesma que foi utilizada na coroação de Nossa Senhora Aparecida como Rainha e padroeira do Brasil, em 1904 (MOURA, 2002, p. 111).

Dali partiram para Pindamonhangaba, onde foram recepcionados pela Viscondessa de Pindamonhangaba. Após breve parada, seguiram para Taubaté e Caçapava, apenas descendo na estação. Saíram então do Vale do Paraíba e rumaram para Santos, onde embarcaram para o porto de Paranaguá, rumo às províncias do Sul.

Na volta para a Corte, cerca de quatro meses depois, a Princesa Isabel, o Conde d’Eu e seus filhos passaram novamente pela região, fazendo breves paradas pelas estações das cidades e pernoitando novamente na residência dos Moreira Lima. Em Pindamonhangaba, ocorreu um fato que demonstrou o desprezo que os titulares da região tinham pela figura da Princesa Imperial. O jornal Tribuna do Norte (13 de março de 1885, p. 3) noticiou o constrangimento pelo qual os príncipes passaram na estação de Pindamonhangaba:

Passaram no dia 12 para a corte SS. AA. II. que chegado do passeio que fizeram à província do Rio Grande. Na estação, além dos empregados da companhia, nem viva alma. O trem especial em que vinham demorou-se meio minuto, e… foram-se os príncipes, com destino à Lorena, onde tinham de pernoitar em companhia do Exmo. Sr. Visconde de Moreira Lima.

Parece que nem o Barão da Palmeira, eterno incansável em tentar agradar e encantar a família Imperial, estava fora do grupo dos nobres cafeicultores que viam a Princesa Isabel como a responsável direta pelo fim da utilização da mão-de-obra escrava.

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Livros:

AZEVEDO, A. Arnolfo de Azevedo – infância e adolescência (1868 a 1887). São Paulo: Nacional, 1962.

DAUNT, R. G. Diário da Princesa Isabel: excursão dos Condes D’Eu à Província de São Paulo em 1884. São Paulo: Anhembi, 1957.

EVANGELISTA, J. G. Lorena no século XIX. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.

SOBRINHO, A. M. A civilização do café, 1820 – 1920. (Cap. XIII: Imperadores e príncipes no Vale). Ed. Brasiliense, 1978.

VIOTII, E. Da senzala a colônia. São Paulo: Unesp, 1997.

Jornais:

Correio Paulistano, São Paulo, 6 de outubro de 1878.

Santuário de Aparecida, 19 de novembro de 1921.

Tribuna do Norte, Pindamonhangaba, 13 de março de 1885.

Documentos avulsos:

Ata da Câmara de Lorena, sessão extraordinária de 22 de setembro de 1884.

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1868: uma princesa devota

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Procurei reproduzir aqui trechos da minha monografia, destacando apenas os aspectos principais das visitas de d. Pedro II e da Princesa Isabel em cada cidade. Os capítulos 1 e 2, mais conceituais, serão abordados em outra oportunidade.

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Ao alastrar-se, a notícia da visita do monarca gerava grande comoção e fazia muitas cidades se prepararem mesmo antes da formalização da visita. Foi o que ocorreu com Bananal em duas ocasiões: 1845 e 1849. Em 1845, a notícia de que o Imperador estava planejando a sua primeira visita para fora da província do Rio de Janeiro, com destino à São Paulo, exaltou os ânimos dos bananalenses, que vendo-se na rota de uma possível viagem por terra acreditaram que d. Pedro II deveria parar na cidade pela importância econômica de Bananal. Pois bem, a Câmara Municipal mobilizou os proprietários que enviassem seus escravos para consertarem as estradas da cidade. Além disso, organizou uma comissão responsável por criar um programa da visita do Imperador, destinou recursos financeiros para a realização de um Te-Deum na igreja matriz, para os festejos e para as reformas necessárias nas ruas e praças, com a instalação de dois arcos iluminados, além da orientação de que todos os cidadãos enfeitassem suas casas (RAMOS, 1975, p. 141-144). Para decepção dos bananalenses, o Imperador visitou a província de São Paulo, mas não passou pela cidade, embarcando no porto de Santos direto para o Rio de Janeiro.

Nos finais de 1868, a Princesa Isabel e seu recém-esposo Conde d’Eu, foram excursar em Minas Gerais para fazer uso das águas termais, famosas à época para usos medicinais. Na volta, o roteiro da viagem passava pelas principais cidades do Vale do Paraíba paulista rumo à capital da província de São Paulo, onde iriam cumprir uma série de compromissos oficiais (EVANGELISTA, 1978, p. 131).

Porém, o roteiro da viagem dos príncipes teve que sofrer uma redução. O Conde d’Eu havia sido chamado por d. Pedro II para assumir as tropas do Brasil na Guerra do Paraguai e, por isto, deveria abandonar os planos de estender a viagem até a capital.

Finalmente, os príncipes chegaram à Lorena e logo “sendo encontrados por mais de cento e sessenta cavaleiros” (Correio Paulistano, 23 de dezembro de 1868, p. 2) ainda na estrada que ligava Itajubá à Lorena, no local conhecido como fazenda do Campinho. Todos os preparativos foram realizados na cidade, desde reparos nas ruas, até a instalação de arcos, além da tradicional decoração das portas e janelas das casas da cidade. A comissão responsável por esta recepção foi nomeada pela Câmara e tinha a missão de “promover e dirigir os festejos na cidade, a fim de que seja a recepção a mais suntuosa possível” (Ata da Câmara de Lorena de 21 de novembro de 1868).

Para abrilhantar ainda mais a recepção preparada pelo comendador Castro Lima, contratou-se a companhia lírica de Carlotta Augusta Candiani, de enorme sucesso na Corte. “O cel. José Vicente de Azevedo havia feito vir de S. Paulo, a cavalo e em carros de boi, a artista ilustre e toda a sua lírica companhia” (RODRIGUES, 1942, p. 16). A récita de Candiani foi apresentada em um espetáculo de gala no pequeno teatro local, onde a elite lorenense esteve presente.

Visconde de Guaratinguetá

O Visconde de Guaratinguetá, homem mais poderoso em todo o Vale do Paraíba à época, anunciou a chegada da Princesa Isabel e do Conde d’Eu à cidade em sessão da Câmara Municipal de 3 de novembro de 1868. Além disso, ordenou “ao vigário e Mestre da capela para celebrar um Tedeum Laudamus no dia da chegada e afixar edital convidando o povo deste município para fazerem as festas que quiserem por tão fausto acontecimento” (Ata da Câmara de Guaratinguetá,3 de novembro de 1868).

Desta forma, ao adentrarem na cidade, a Princesa Isabel e seu marido, acompanhados pelos cavaleiros que vieram desde Lorena, devem ter se deparado com esse espetáculo descrito pelo hiperbólico articulista do jornal O Parahyba (13 de dezembro de 1868, p. 2):

Quando se aproximaram SS.AA.II., estrondaram nos ares inúmeros foguetes, que se despendiam rápido, e quase sucessivamente de diversas e grandes girandolas, e atroaram o espaço ferventes e entusiásticas aclamações do povo sem distinção de partidos políticos. Ao passarem por sob o arco do centro da cidade duas encantadoras e bem adornadas meninas, simulando dois anjos, derramaram sobre a cabeça dos augustos viajantes como que a sua cornucópia de jasmins e rosas.

No dia seguinte, os príncipes dirigiram-se à capela de Nossa Senhora Aparecida, como já era esperado pelo Visconde.Os príncipes chegaram à capela logo cedo, às seis horas da manhã. Para a Princesa Isabel o momento também era aguardado com grande expectativa, pois além de devota da santa, tinha por objetivo pedir intercessão a Nossa Senhora por dois motivos: que engravidasse dos herdeiros do Império (pois estava em tentativas fracassadas desde seu casamento em 1864) e também que a missão de seu esposo no Paraguai terminasse o mais breve possível e em sucesso (EVANGELISTA, 1978, p. 131).Adentraram à igreja e rezaram uma novena em louvor à santa. Camargo (1970, p. 291) relata, a partir do testemunho ocular do alferes Antônio José dos Santos, que nesse momento “dona Isabel doou a Nossa Senhora um riquíssimo manto com brilhantes, no valor de 18 contos de réis”.Ao saírem da capela, ocorreu mais um momento de êxtase para os ali presentes, principalmente para encanto dos príncipes, como descreve Moura (2002, p. 108):

Saindo à praça, foi o casal homenageado por Antônio Joaquim da Silva Ramos, com um solo de trombone de vara. O músico de Aparecida era dono de um talento inesperado: executava solos com os dedos do pé! Foi grande o sucesso de Antônio Ramos: o príncipe o abraçou, a princesa ofereceu-lhe um lenço de seda e o trombonista foi convidado para tocar nessa mesma noite no baile que, em seu solar da Rua da Figueira, em Guaratinguetá, o visconde ofereceria aos Condes d’Eu.

Antônio trombonista, como era conhecido, era ex-escravo e costumava tocar nas festas da capela. Por possuir um dom especial para a música, emocionou os príncipes, que o levaram a deixar sua condição de anônimo para tornar-se músico profissional. “Dizem que Antônio seguiu para Vila Rica, Ouro Preto e seus estudos foram a expensas da Princesa e até consta que foi para a Europa” (CAMARGO, 1970, p. 293).

No quinto dia de hospedagem na cidade do Visconde de Guaratinguetá, os príncipes decidiram fazer nova visita à capela de Aparecida. Nesta segunda visita dos príncipes à capela, há uma história que contribuiu para a mística envolta à figura da princesa e da santa encontrada no rio Paraíba do Sul. O jornal O Parahyba (13 de dezembro de 1868, p. 3) relata o acontecido como “um novo verdadeiro milagre de N. S. da Conceição Aparecida”. A história foi disseminada pelos jornais da capital da província de São Paulo e também da Corte.
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O jornal Correio Paulistano (22 de dezembro de 1868, p. 2) relatou que um guarda nacional que havia sido escolhido para juntar-se às tropas na Guerra do Paraguai tentou por todas as vias legais deixar de fazer parte do quadro de soldados de guerra. Porém, com a urgência do recrutamento em massa, o delegado de Lorena, José Vicente de Azevedo, não hesitou, mandou prender e algemar o guarda, enviando-lhe à pé até São Paulo. Quando passou por Aparecida, o guarda pediu que parassem para que ele orasse na capela. Neste mesmo instante em que estava ajoelhado orando, adentrou ao templo a Princesa Isabel, o Conde d’Eu, o Visconde de Guaratinguetá e os poucos membros da comitiva que os acompanhavam nesta rápida e não planejada visita. O guarda acorrentado jogou-se aos pés da princesa, implorando a reparação pela injustiça que estava sofrendo, solicitando que lhe fossem tiradas as algemas. A Princesa Isabel então pediu ao Conde d’Eu que ordenasse a retirada das algemas. Este logo se aproximou do tenente que acompanhava o guarda preso e indagou: “Que fez este homem? É assassino, é criminoso?” (O Parahyba, 13 de dezembro de 1868, p. 3). O tenente então respondeu que se tratava de um guarda nacional designado. Surpreso, o Conde exclamou: “um guarda nacional designado! Pois conduz-se, assim, algemado um guarda nacional n’um paiz livre! Oh! sr. tenente, mande tirar estas algemas; o guarda nacional irá como homem de bem” (O Parahyba, 13 de dezembro de 1868, p. 3).

Barão da Palmeira

Após longa estada, finalmente pelo dia 14, às 5 horas da manhã, o casal deixou Guaratinguetá rumo à Pindamonhangaba. A cidade de Pindamonhangaba também tentou encantar o casal durante a breve visita que fizeram à localidade. Nos três dias que ali permaneceram, tiveram como principal anfitrião o Barão da Palmeira, que não mediu esforços para tornar sua estada a mais aprazível possível.

Um dos grandes destaques da estada da Princesa Isabel e do Conde d’Eu em Pindamonhangaba, foi a construção de um bosque pelo Barão da Palmeira. A pedido do titular, o presidente da Câmara comprou uma faixa de terra de aproximadamente 450 m2 que se localizava entre o palacete do titular e o rio Paraíba do Sul, exatamente onde hoje se encontra o parque municipal Bosque da Princesa. A intenção do Barão da Palmeira era construir um requintado lugar onde os recém-casados, pudessem desfrutar de momentos de privacidade. O titular “mandou vir da França botânicos e um desenhista para remodelar completamente o logradouro, resultando num bosque com diversos tipos de árvores, de várias origens e de várias espécies” (GUIMARÃES, 2007, p. 50).

Visconde do Tremembé

No dia 16 de dezembro o casal partiu de Pindamonhangaba e chegou à Taubaté, última cidade da província de São Paulo a visitarem antes de retornarem à Corte, para atender ao chamado de d. Pedro II.

Ao entrarem na cidade de Taubaté, as janelas das casas encontravam-se “cheias de moças, que em todo o trajeto, faziam cair uma chuva de flores sobre o carro em que vinham Suas Altezas Imperiais” (Paulista,20 de dezembro de 1868, p. 3). A casa do então Barão de Tremembé, principal titular da cidade e responsável pela organização e hospedagem dos príncipes Imperiais, encontrava-se com especial iluminação instalada para a ocasião. Haviam sido montados dois coretos em frente ao palacete, onde tocavam as bandas musicais da cidade.

No dia seguinte, logo às 7 horas da manhã, os príncipes Imperiais em companhia do barão e da baronesa de Tremembé foram visitar a capela de Tremembé. Ao saírem da capela, juntou-se a eles o conselheiro Feijó e o juiz de direito da comarca de Taubaté, para visitarem “a Cadeia, o Convento de S. Clara, cemitério anexo e o Hospital de caridade” (Paulista, 20 de dezembro de 1868, p. 3). O hospital visitado se transformaria no futuro hospital Santa Isabel, tendo como patrona e uma das principais financiadoras a própria Princesa Isabel.
Dali partiram no dia 19 de dezembro para Pindamonhangaba, alcançando Guaratinguetá no mesmo dia. Dos três dias que passaram na residência do Visconde de Guaratinguetá, ficou marcado na memória dos presentes o faustoso jantar oferecido pelo Visconde e pelos príncipes à elite local (MOURA, 2002, p. 110). Às 7 horas da manhã do dia 23 de dezembro seguiram para Lorena e depois rumaram para o Rio de Janeiro. Sofreu então Isabel a angústia de ver o marido partir para a guerra, quando tudo estava tão incerto.
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Referências Bibliográficas

CAMARGO, C. B. R. Passagem da Princesa Isabel em Guaratinguetá e Aparecida. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paulista, vol. LXVII, São Paulo, 1970.

EVANGELISTA, J. G. Lorena no século XIX. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.

GUIMARÃES, B. Recontando a História de uma Princesa. Pindamonhangaba: São Benedito, 2007.

MOURA, C. E. M. O Visconde de Guaratinguetá: Um Titular do Café no Vale do Paraíba. São Paulo: Studio Nobel, 2002.

RAMOS, A. Pequena história de Bananal. São Paulo: Sangirardi, 1975.

RODRIGUES, Gama. O Conde de Moreira Lima. São Paulo: IGB, 1942.

Jornais

Correio Paulistano, São Paulo, 23 de dezembro de 1868.

Correio Paulistano, São Paulo, 22 de dezembro de 1868.

O Parahyba, Guaratinguetá, 13 de dezembro de 1868.

Paulista, Taubaté, 20 de dezembro de 1868.

Documentos avulsos

Ata da Câmara de Lorena de 21 de novembro de 1868.

Ata da Câmara de Guaratinguetá,3 de novembro de 1868.

Última estação: Arquivo do Estado de São Paulo

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Bem amigos, finalmente estamos nos finalmentes. Amanhã entrego minha monografia e começo a me preparar para minha defesa na banca. Além da minha orientadora, a prof. Drª. Maria Fátima de Melo Toledo, estarão lá os dois professores que convidei para serem avaliadores do meu trabalho: prof. Dr. Isnard de Albuquerque Câmara Neto e a prof. Drª. Maria Januária Vilela Santos.

Nos próximos posts, vou colocar trechos das histórias das viagens de d. Pedro II e da Princesa Isabel pelo Vale do Paraíba. Histórias que coletei ao longo das minhas pesquisas nos empoeirados arquivos da região.

Bom, hoje gostaria de contar o último arquivo que passei: o Arquivo do Estado de São Paulo. Nos meus planos iniciais, eu não iria ao Arquivo do Estado, mas quando acabei de visitar os arquivos aqui da região, analisei as tantas peças do quebra-cabeça que tinha pesquisado ao longo dos meses e vi que ainda faltavam algumas peças. Primeiramente, pensei em ir ao Rio de Janeiro novamente para pesquisar nas edições do Jornal do Commercio,  na época o melhor e mais abrangente jornal da Corte. Mas, devido ao tempo curto que teria e também à escassez de dinheiro em que eu me encontro, optei por uma alternativa mais barata. Aliás, fazer pesquisa sem o auxílio de bolsa e sendo estagiário é algo desafiador.

O acervo de jornais do Arquivo do Estado é fenomenal! Possui jornais desde os primórdios da imprensa no Brasil, com edições próximas aos primeiros anos do Brasil independente. Minha pesquisa se baseou nos jornais do período entre 1846 a 1889. Obviamente que comecei pelos jornais dos anos de 1868, 1878, 1884 e 1886, quando d. Pedro II e a Princesa Isabel viajaram pelo Vale. Infelizmente não deu tempo de pesquisar nos demais jornais de outras datas.

Em todas as datas encontrei vastas informações. Em 1868 e, principalmente em 1886 haviam belíssimas descrições detalhadas das viagens dos Imperantes pela região. Com o avanço da tecnologia, proporcionada pela 2ª Revolução Industrial, os jornalistas se comunicavam com as sedes dos jornais ou por telégrafo, ou pelo telegrama que viajava todos os dias pelos trens. Desta forma, com a diferença de apenas um dia, o jornal Correio Paulistano publicava o que havia acontecido nas visitas do Imperador. O Correio Paulistano está para São Paulo do século XIX, assim como o Jornal do Commercio está para o Rio de Janeiro do mesmo período.

Deixarei para os próximos posts o destaque de alguns acontecimentos pitorescos dessas viagens, mas trago aqui em primeira mão o menu do jantar servido em Lorena pelo então Visconde de Moreira Lima para recepcionar d. Pedro II e a Imperatriz Thereza Cristina em 1886. A tradução do francês para o português é da minha irmã, Naiara Santos. Deliciem-se!

ORIGINAL

TRADUÇÃO

Potages

Creme de volaille aux pointes d’Asparge

Consomné printaimier

 

Hors-d’oeuvre

Rissoles a la Perigord

Croustades a la Montglas

 

Relevés

 

Garoupa sauce écrevisses

Filet aux pommes de terre

 

Entrées

 

Gatueax à la Napolitaine

Còtelettes d’agneau aux petits poix

 

Piéces froides

Mayonnaise de hommard à la gelèe

 

Aspic1 de fois gras

Funch a la Imperiale

 

Dinde à la Brésilliene

Jambon d’York et historié

 

Entremets

Asperges sauce Hollaise

Pudding a la Diplomate

Gelée fouettée

Bavaroise a la Vanille

Fromage glacé

 

Fruits de la saison

 

Dessert Assorti

 

Cafée cognac et liqueurs

Sopas

Creme de frango com aspargos

Consumir primeiramente

 

Aperitivo

Rissoles à moda Perigord

Crisps à Montglas

 

Discursos (ou brindes)

 

Garoupa com molho de lagosta

Filé com maçãs da terra

 

Entradas

 

Bolos napolitanos

Costelas de cordeiro com ervilhas

 

Saladas

Maionese com pinças de crustáceo gelada

 

“Foie gras” significa “fígado gordo”2

Erva-doce à moda Imperial

 

Perú à moda brasileira

Presunto de York e “conversas”

 

Sobremesas

Aspargos ao molho apimentado

Pudim à Diplomata (pudim de pão)

Chantily gelado

“Creme” de baunilha

Pudim de queijo gelado

 

Frutas da estação

 

“Docinho de saída”

 

Café, conhaque e licor

 

1 O Aspic liquido, é usado em geral na culinária, na preparação de musses e terrines, e também para dar brilho às carnes e aves. Faz-se adicionando gelatina ao consomê, que pode ser cortado em formas decorativas para guarnição.

2 É o fígado de um pato ou ganso super-alimentado. Junto com as trufas, o foie gras é considerado uma das maiores iguarias da culinária francesa.

Lá nas Areias…

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Estive em Areias, cidade do Vale Histórico, próxima a Bananal, São José do Barreiro, Arapeí e Silveiras, todas com um passado glorioso no período do café. Os nobres cafeicultores mais ricos lá moravam, lá plantavam café, lá escravizarão muitos negros cativos e lá ganhavam muito dinheiro. Em Bananal chegou a circular moeda própria, cunhada pelo poderoso Manoel de Aguiar Valim, o barão de Aguiar Valim.

Em Areias estava atrás das descrições sobre as tantas visitas de d. Pedro II e da Princesa Isabel na região. Muita gente fala que houve, mas há poucos documentos que realmente comprovem essas visitas. Que elas aconteceram eu não tenho dúvida, afinal a região se localiza na divisa com o Rio de Janeiro e possuía muitas ligações com a poderosa aristocracia do Vale fluminense. As cidades do Vale Histórico eram tidas como um refúgio dos nobres fluminenses. Inclusive os relatos orais que chegou até nós descrevem que as visitas do Imperador e da Princesa às cidades de Areias e Bananal sempre foram de cunho particular, para participar de saraus, bailes e encontros com cafeicultores fluminenses e paulistas. Nada muito oficial. O que mais gostaria de encontrar eram os detalhes do baile que a Princesa Isabel deu em 1888 em Areias para todos os nobres cafeicultores (e escravocratas) da região, em comemoração à libertação dos escravos.

Essa falta de oficialidade é que dificultou em muito encontrar documentos, jornais ou atas de câmara citando tais ilustres visitas. Na Casa de Cultura de Areias, bela residência no centro da cidade, onde já foi um cartório que Monteiro Lobato trabalhou e escreveu seu livro “Cidades Mortas”, funciona atualmente um museu e o arquivo municipal. Aliás, percebi bem porque Monteiro Lobato esteve entediado quando trabalhava em Areias. Durante todo o dia que estive lá, devo ter avistado cerca de 30 pessoas ao todo. A cidade é muito bonita, mas bem vazia, mais parecendo cenário de novela das 6 da Globo.

O Arquivo está em excelentes condições. Os documentos cartorários encontram-se bem organizados em pastas e prateleiras, por data e assunto. Porém, os demais tipos de documentos ainda precisam de melhor acondicionamento e organização. Há 2 estantes com muitos documentos policiais do início do século XX, pedaços de livros de registro sanitário, muitas cadernetas escolares e inclusive pedaços das atas da Câmara Municipal de Areias do século XIX. Lá, não encontrei nenhuma referência às visitas dos Imperantes na cidade.

Pesquisei também nos jornais. Há dois livros com todas as edições do jornal “O Mosquito” de 1872 e 1873. Para minha decepção, não há mais jornais de outros anos. Neles, com certeza encontraria pelo menos citações das passagens do monarca e de sua filha pela cidade, mas o tempo levou esses preciosos documentos.

O que essas cidades do Vale Histórico têm de mais rica é a sua história. Foram o primeiro caminho entre a Corte e a capital da província de São Paulo. Por lá, passou d. Pedro I rumo à Independência e lá se hospedou o segundo Imperador e a Princesa Imperial. Muita riqueza foi produzida nas fazendas da região, mas poucas sobreviveram até os dias de hoje. Perdeu-se muito da história daquele local, tanto em documentos como os jornais, quanto do belíssimo patrimônio arquitetônico. E a tradição oral, que ainda carrega consigo alguns resquícios fantásticos da história dos poderosos barões daquelas terras está se esvaindo como a memória que se acaba com o tempo. Algo precisa ser feito por lá ou aquelas cidades estarão fadadas ao destino cruel de Monteiro Lobato.

Teaser: “Os passos do Imperador”

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Pessoal, acabo de produzir um pequeno vídeo em formato de teaser sobre o trabalho que estou produzindo. Assistam e me digam o que acharam:

Museu Major Novais: decadência e descaso

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Olá amigos,

Ultimamente anda bem difícil escrever aqui no blog por conta do meu tempo estar cada vez mais escasso. Final de ano todos sabem como é corrido, ainda mais quando se está no final do curso, com inúmeras preocupações dentro e fora da faculdade. Tenho dedicado meu tempo para escrever minha monografia. Trago a boa notícia de que já estão escritos 2 capítulos. O primeiro dedica-se basicamente à explicação das origens sagradas da realeza, buscando identificar como e quando surgiu esse caráter místico que envolve o poder monárquico. O segundo capítulo trato do caso brasileiro, explicando suas origens portuguesas e francesas e as formas que a monarquia brasileira encontrou para legitimar seu poder.

Bom, o terceiro capítulo será a grande descrição das tantas viagens desse nosso “monarca itinerante”. E para isso, visitei o Rio de Janeiro como já relatei aqui e rodei todo o Vale do Paraíba. Hoje mesmo estive no Arquivo do Estado de SP, onde acredito ser minha última etapa de pesquisa.

Voltando aos casos dessas minha pitorescas viagens pelos Arquivos, Museus e Bibliotecas, quero relatar o ponto mais baixo de toda minha pesquisa.

Na busca pelos documentos e jornais que relatassem as visitas do Imperador e de sua filha pelo Vale Histórico fui até Cruzeiro, no Museu Major Novais. Já havia lido pela Internet que o Museu está em estado deplorável de conservação, mas não imaginava tanto. Ao chegar lá, pude ver o que Monteiro Lobato relatou em seu livro “Cidades Mortas”: a decadência do período áureo das cidades do Vale. Pensar que o casarão imponente do poderoso Major Novais, dono de grande parte das terras de Cruzeiro e que, graças a sua proximidade com d. Pedro II, conseguiu trazer para suas terras o entroncamento da ferrovia “Minas and Rio” com a “Pedro II”, dando origem ao povoado, depois vila e hoje cidade de Cruzeiro, estaria nesta situação. Tudo está por cair, madeiramento podre, portas tortas, assoalho carcomido, cômodos sem luz e ventilação. E dentro de tudo isso está o maior conjunto documental do Vale do Paraíba.

Lá dentro, em um cômodo escuro, úmido e sujo estão estantes e mais estantes de documentos cartorários e judiciais das cidades de Cruzeiro, Bananal, São José do Barreiro, Silveiras e Queluz. Tudo pôsto em pastas, obedecendo ao mínimo de organização que exige-se a um arquivo. Em outro cômodo, sem luz, encontra-se muitas caixas de papelão com diversos documentos, entre inventários, escrituras e jornais. Nessas caixas, escondidas num canto, Heloisa e eu achamos os jornais das cidades que pesquiso. Grande parte eram jornais de Bananal, mas todos do período republicano. Os jornais do período do Império do Brasil se perderam com o tempo.

Museu Major Novais

Outro ponto que me incomodou muito no Museu Major Novais foi o atendimento. De manhã fica uma senhora com boa vontade, mas sem conhecimento algum sobre o arquivo e seus documentos. O lado bom foi que ela liberou o arquivo para pudéssemos “fuçar” à vontade em todas as caixas. Agora à tarde, estava presente o responsável pelo Museu, professor Carlos Felipe. Ao contrário da senhora, ele conhece bastante o arquivo, mas não tem disposição alguma de ajudar. Aliás, no alto de seu ego, mais atrapalha do que ajuda, criticando a tudo e a todos, menosprezando o trabalho dos outros e indicando caminhos perigosos para um pesquisador leigo. Enfim, o atendimento do Museu Major Novais é tão precário quanto à estrutura de seu prédio.

Não encontrei muita informação que me ajudasse a desvendar onde d. Pedro II e sua filha teriam se hospedado, quando e o que fizeram em suas passagens pelo Vale  Histórico. Alguns textos informam que foram várias as passagens dos monarcas por Areias e Bananal. Mas, “várias” é muito relativo. Tenho as seguintes informações fragmentadas abaixo:

– Bananal: d. Pedro II hospedou-se por 2 vezes na Fazenda Resgate.

– Areias: d. Pedro II e a Princesa Isabel participaram várias vezes de saraus e bailes com os nobres do café, hospedando-se no Hotel Sant’anna. Em 1888, a Princesa Isabel teria dado uma festa em comemoração à abolição da escravidão.

– São José do Barreiro: em 1874, o Conde D’Eu hospedou-se na Fazenda São Miguel, do comendador Luis Ferreira de Souza Leal, para caçadas com nobres da corte.

Fazenda Resgate - Bananal

Em Cruzeiro, as informações parecem mais claras, mesmo assim ainda não possuo confirmações mais fidedignas do que relatos pessoais e “causos” contados pela população e escritos em um dos livros da “Coleção Cadernos Culturais do Vale do Paraíba”. Lá consta que o Imperador teria passado 3 vezes por Cruzeiro.

– 1882: em visita às obras do Túnel Grande da Serra da Mantiqueira, na estrada de ferro que ligaria Três Corações (MG) a Cruzeiro (SP). Nesta visita ficou hospedado na residência dos engenheiros no Morro dos Ingleses, em Cruzeiro.

– 1883: uma possível visita para inspeção final na estrada de ferro

– 1884: a 14 ou 22 de junho, o Imperador veio com comitiva e família para inaugurar a estrada de ferro “Minas and Rio”. Nesta ocasião, a princesa Isabel chegou a relatar que gostaria de chupar jabuticabas do pé, pois eram mais saborosas. O incansável Major Novais não pensou duas vezes. Mandou seus escravos arrancarem uma jabuticabeira e trazê-la até à beira da estação, para que assim Vossa Alteza Imperial pudesse satisfazer seus desejos.

O próprio Major Novais parecia ter uma admiração venerável pela família Imperial. Quando a Monarquia caiu e foi dado o golpe da República, o major ficou inconformado. Saiu da vida política e dedicou-se apenas à sua propriedade. Em sinal de protesto, resolveu fazer uma homenagem ao seu eterno Imperador. Deixou a barba crescer para parecer com o Imperador e foi visitá-lo na França, onde d. Pedro II estava exilado.

Enfim, Cruzeiro me forneceu várias histórias e causos, mas nenhuma certeza. Se alguém tiver uma luz para mim, por favor, entre em contato.

Lorena: terra do Conde de Moreira Lima

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Palacete do Conde de Moreira Lima

No segundo dia que visitei Guaratinguetá, consegui terminar mais cedo meus trabalhos de pesquisa e dei uma esticada até Lorena, cidade vizinha. Uma cidade aprazível, com uma bela avenida calçada de pedras, alguns casarões históricos e um largo predomínio dos Salesianos. Além da UNISAL (Universidade Salesiana) há várias escolas geridas pela Congregação Salesiana. A UNISAL está para Lorena, como a UNITAU está para Taubaté. Ao que pude perceber, as freiras e os padres salesianos estão na cidade desde a última década do século XIX.

Visitei brevemente a Biblioteca Municipal, que possui em seu 2º andar o Arquivo Municipal. A responsável pelo Arquivo estava doente (e permaneceu nos 4 próximos dias) e por isso o local estava fechado para pesquisas. Conversei um pouco com o Maurício, atendente da Biblioteca Municipal e fui dar uma volta pelas redondezas para conhecer a cidade.

Logo percebi que o Conde de Moreira Lima era o grande “pai” dos lorenenses. A praça onde está a Biblioteca leva seu nome e também apresenta seu busto. Ao lado, há a Santa Casa de Misericórdia, que já levou seu nome, por ser patrono fundador. Caminhando para além da linha do trem, pude avistar uma belíssima Igreja, que num muro de azulejos na entrada pude notar que ela foi construída também pelo Conde. A Igreja São Benedito foi uma das obras mais suntuosas do Conde. Ele foi o responsável pela arrecadação de dinheiro na cidade para que fosse possível tamanha opulência dessa Igreja. Graças a seu esforço, conseguiu ter elevado seu título de Visconde para Conde em 1885, se tornando o único Conde do Vale do Paraíba. Isto ocorreu 1 ano após a visita de d. Pedro II, da Imperatriz Thereza Cristina, da Princesa Isabele Conde D’Eu em 1886.

Igreja de São Benedito

Aliás, a ascensão nobiliárquica do Conde de Moreira Lima está intimamente ligada às recepções que ele organizou para a Família Imperial, quando em viagem pela região e passagem pela cidade. Em 1882, Joaquim José Moreira Lima torna-se Barão devido a sua ajuda financeira na Guerra do Paraguai. Em 1884 recebe a Princesa Isabel na cidade e aproveita para encantar toda a comitiva Imperial com 2 grandes inaugurações: Igreja de São Benedito e o Engenho Central. A Princesa Isabel parece ter ficado bastante impressionada com o Engenho montado pelo então Barão de Moreira Lima, pois o descreveu como o mais avançado e moderno da Província de São Paulo. Um ano depois, o Barão torna-se Visconde.

Conde de Moreira Lima

Não contente, o Visconde de Moreira Lima preparou mais um surpresa para os Imperiantes. Em 1886, durante visita do Imperador d. Pedro II e sua esposa, a Imperatriz e da Princesa Isabel com seu marido, Conde D’Eu, Moreira Lima preparou 3 atos de enorme expressão para a cidade e para os importantes viajantes. Inaugurou a linha de bondes do Engenho Central, ligando a fábrica ao centro e à estação de Lorena. Somente para a visita do Imperador, a Câmara aprovou que fossem utilizados bondes à vapor, novidade à época em terras valeparaibanas. Além disso, ciente de que d. Pedro II estava interessado na ampliação da iluminação pública do país, o Visconde também inaugurou a iluminação à gás de hulha na Igreja de São Benedito e em seu Palacete, onde hospedara toda a Família Imperial.

Mas, o acontecimento mais significativo na cidade de Lorena foi outro. Apesar do Visconde não ter organizado formalmente, foi amplamente beneficiado pelo histórico ato. Sabendo da visita do Imperador, os vereadores da Câmara Municipal organizaram a compra de um Livro de Ouro, onde deveriam colher assinaturas e doações em dinheiro para a compra de cartas de alforria. Este ato simbólico já estava ocorrendo nas cidades do Vale fluminense. Segundo as atas da Câmara de Lorena daquele período, a primeira assinatura deveria ser de d. Pedro II. E foi o que aconteceu. O Imperador não só assinou, como doou 500 mil réis para a comissão responsável. Também foi organizada uma outra comissão que deveria arrecadar dinheiro suficiente para libertação de 2 escravas. As cartas de alforria dessas 2 escravas foram entregues pessoalmente pela Princesa Isabel. Dessa forma, a cidade de Lorena ficou na memória da Família Imperial, que não se esqueceu do Visconde de Moreira Lima. Em 1887, por decreto, d. Pedro II o elevou de Visconde para Conde de Moreira Lima.

Esse é um dos exemplos que ilustram perfeitamente o meu estudo. As viagens do Imperador e de sua filha eram utilizadas para reforçar seu poder nas cidades e regiões distantes da Corte, enquanto, por outro lado, o poder local aproveitava a honra de ter d. Pedro II na região de seu domínio para reafirmar seu poderio local e angariar uma inserção maior na sociedade e na política da época.

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