1886: o último espetáculo do Imperador

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Caros amigos, tenho o prazer de trazer-lhes a última viagem de d. Pedro II ao Vale do Paraíba. São recortes dos principais acontecimentos dessa que foi a principal viagem do Imperador tentando apaziguar os ânimos dos cafeicultores escravocratas. Divirtam-se!

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A questão da abolição aliada à crescente força que os republicanos tinham adquirido no cenário político reforçava a necessidade do Imperador e da Imperatriz sair da Corte e tentar mais uma vez usar todo o aparato simbólico da monarquia para evitar que mais nobres da região valeparaibana deixassem a base de sustentação do Império. Seria não só a última viagem de d. Pedro II pelo Vale do Paraíba, mas também a que o Imperador mais se empenhou para agradar a todos nas cidades pelas quais passava. Era o tiro de misericórdia.

O esplêndido avanço tecnológico da segunda metade do século XIX auxiliou os jornalistas a publicarem com apenas um dia de diferença os detalhes minuciosos dessa última viagem de d. Pedro II pelo Vale do Paraíba. Por telegrama, o correspondente do jornal Correio Paulistano (19 de outubro de 1886, p. 2) relata a chegada do Imperador em solo valeparaibano: “estação da Cachoeira, 18 de Outubro, 12.30 da tarde. Há dez minutos chegou a esta estação o trem Imperial, que saíra da corte as 6 da manhã, sendo a viagem feita nas melhores condições”. A extensa comitiva contava com cerca de trinta pessoas, onde estavam a família Imperial, além de nomes importantes onde destacam-se dentre outros o pintor Almeida Júnior, o Barão de Parnaíba, então presidente da província de São Paulo, o conselheiro Antônio Prado, o dr. Cochrane, além de ministros da Bolívia e da Argentina. (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2). De Cachoeira, partiram para Lorena.

A ata da Câmara Municipal de Lorena de 19 de setembro de 1886 já determinava que “fique autorizado o sr. Presidente da Câmara a fazer as despesas precisas com concertos de ruas e praças e outros serviços, a fim de se preparar a Cidade para receber Sua Majestade, o Imperador”, porém colocava uma ressalva que até então não tinham aparecido nas demais visitas de membros da família Imperial: “devendo observar a maior economia possível nesses dispêndios” (Ata da Câmara de Lorena, 19 de setembro de 1886). Os tempos eram outros e a pompa de que tanto a monarquia necessitava já era vista como gasto que onerava os cofres públicos e não traziam tantos benefícios palpáveis para as decadentes finanças de Lorena.

“Os pontos principais de visitação, o palacete Moreira Lima, a igreja de São Benedito, foram iluminados a gás, especialmente, instalado para o acontecimento” (SOBRINHO, 1978, p. 105). Além disso, a Câmara Municipal solicitou à Companhia da Estrada de Ferro do Norte que pintasse e preparasse a estação de trem da cidade para a recepção do Imperador (Ata da Câmara de Lorena, 29 de setembro de 1886).

Visconde de Moreira Lima

Na estação, o Visconde de Moreira Lima e sua esposa encontraram com a família Imperial e os levaram de bondes até a Igreja de São Benedito, onde o monarca pode fazer sua oração. Dali saíram rapidamente para outra obra com a marca dos Moreira Lima, o Engenho Central, que era na época a menina dos olhos do Visconde. Ele mesmo, no empenho de mostrar à família Imperial o estado de progresso daquela fábrica e da cidade, tentou por via da Câmara aprovar a utilização dos bondes à tração animal ou a vapor, que levariam a comitiva da estação até à usina.

O projeto levou a um embate entre os vereadores, onde alguns eram contrários à ideia, pois acreditavam “ser inconveniente e desastroso bonde por tração à vapor dentro da Cidade” (Ata da Câmara de Lorena, 5 de outubro de 1886). Ficou decidido então que se votaria o projeto em separado: uma votação para a instalação da linha de bondes e outra para a definição do modelo, animada ou à vapor. Por fim, venceu o projeto da instalação dos bondes à tração animal, “podendo construir a linha que projeta mas unicamente com tração animada, contanto que não fique prejudicado o trânsito publico e devendo ser adotadas as medidas convenientes para evitar desastres” (Ata da Câmara de Lorena, 5 de outubro de 1886).

Mesmo assim, o Visconde não ficou satisfeito e dez dias depois entrou com novo requerimento na Câmara para que pudesse utilizar os bondes a vapor, na tentativa de mostrar a todos aqueles ilustres visitantes que a cidade de Lorena possuía o que de mais moderno existia na época em termos de transporte. A sessão da Câmara de Lorena então deferiu novamente o projeto, mas abriu uma exceção: “podendo na experiência e durante a estada dos Imperantes nesta Cidade adotar a tração a vapor” (Ata da Câmara de Lorena, 15 de outubro de 1886). Enfim satisfeito, o Visconde de Moreira Lima estava certo, pois a linha de bondes fez enorme sucesso entre os visitantes, sendo “positivamente, um dos números de maior sucesso nas festas grandiosas com que Lorena acolheu o grande Monarca” (RODRIGUES, 1942, p. 95).

Engenho Central de Lorena com Bonde à tração animal

Tanto d. Pedro II, quanto a Imperatriz, Thereza Cristina ficaram muito satisfeitos com o que viram e seguiram com a comitiva, em bondes especiais para a margem do rio Paraíba, de onde navegaram na lancha a vapor “Heppacare” por dois quilômetros rio acima.

Voltando à cidade, a família Imperial visitou a Câmara Municipal, onde demoraram bastante tempo por causa das indagações do Imperador. D. Pedro II pediu aos vereadores que mostrassem os padrões de pesos e medidas, comumente presente nas Câmaras daquela época, pois eram elas as responsáveis por certificar a unidade dos padrões métricos da localidade. Apresentados os padrões, o monarca “notou que eles estavam muito enferrujados e disse que esse facto causava-lhe desagradável impressão” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2).

Mesmo pegos de surpresa nesta ocasião, os vereadores também haviam preparado um evento que marcaria a história da cidade de Lorena. Seguindo o que já havia virado prática nas cidades do Vale do Paraíba fluminense, os vereadores lorenenses criaram um “Livro de Ouro”, destinado a colher assinaturas e recursos financeiros para a libertação dos escravos da cidade (EVANGELISTA, 1978, p. 173). O Livro deveria ser aberto com a assinatura de Sua Majestade Imperial e realmente o foi, como está na foto abaixo.

Livro de Ouro de Lorena

Seguindo o exemplo do Imperador, os principais nomes daquela viagem não só assinaram o livro como deixaram sua contribuição financeira para a libertação de alguns escravos de Lorena. D. Pedro II doou 500 mil réis, o conselheiro Antônio da Silva Prado deixou 100 mil réis, o Barão de Parnaíba, 50 mil réis e o Visconde de Paranaguá, 20 mil réis, somando-se ao todo cerca de 670 mil réis (Ata da Câmara de Lorena, 15 de outubro de 1886).

Às 6 horas foi servido um suntuoso banquete na residência do Visconde, onde se assentaram à mesa mais de trinta pessoas. Antes de iniciar o jantar, o conselheiro Antônio Prado levantou um brinde a família Vicente de Azevedo, que representada pelo dr. Pedro Vicente também saudou o ministro da agricultura e assim iniciou uma série de 22 brindes consecutivos, sendo dirigidos a pessoas ali presentes, políticos, até à imprensa e ao povo paulista. Às 7h30, d. Pedro II e d. Thereza Cristina foram assistir a um Te-Deum na igreja de São Benedito, retornando pelas ruas bem iluminadas às 8 horas para recepcionar a elite local. Durante a recepção, a Câmara Municipal foi em corporação entregar as duas cartas de alforria que haviam sido financiadas com dinheiro arrecadado pela comissão criada um mês antes. O Imperador então entregou as cartas a duas escravas escolhidas pela comissão da Câmara, segundo relato na ata da Câmara de 24 de outubro de 1886: “à vista do cabal desempenho, que deu a comissão nomeada pela Câmara, à tarefa que lhe foi conferida, não só promovendo a libertação de duas escravas cujas cartas foram entregues pelo nosso Augusto Soberano, que se declarou lisonjeiro pelo modo porque a Câmara solenizou sua honrosa visita a esta Cidade”.

Assim, às 5h55 do dia seguinte, o trem especial saiu de Lorena, deixando entre outros os ministros da Bolívia e da Argentina. Em Guaratinguetá, a estação estava toda enfeitada com arcos, folhagens e bandeiras. “O povo aglomerava-se na plataforma” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2). Ao descer do vagão, o Imperador foi recebido por autoridades políticas, pelo juiz e pelo vigário, que deu vivas à família Imperial, tudo ao som do Hino Nacional. Desta vez, o pedido da Imperatriz foi atendido e a comitiva seguiu de trem até à capela de Nossa Senhora Aparecida. (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2). Infelizmente não chegou até nós os relatos desse ilustre encontro com a imagem da santa.

Em Pindamonhangaba, a primeira notícia da visita da família Imperial foi publicada no jornal Tribuna do Norte, de 12 de setembro de 1886 (p. 3), chegando na cidade no dia 19 de outubro. O povo reuniu-se na plataforma para tentar avistar o Imperador, que ao som de “duas bandas de música – Santa Cruz e João Gomes, SS. MM. foram cumprimentados pelo juiz de direito” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2). A mesma estranheza ao ler que somente o juiz foi receber o monarca teve o jornal Tribuna do Norte (24 de outubro de 1886, p. 3), relatando que “si não fôra o Dr. Leão Velloso, nosso digno Juiz de Direito, não se encontrariam SS. MM. senão com os empregados da Estação”. Pela segunda vez, os titulares da cidade não fizeram questão de recepcionar um membro da família Imperial.

Barão de Tremembé

Desta forma, a comitiva chegou a Taubaté, onde de início iria parar apenas para almoçar, mas ao contrário de Pindamonhangaba, sendo bem recebida pelo então Barão de Tremembé, decidiu ficar mais tempo. Enquanto a banda de música Princesa Imperial tocava, ocorreu um fato inusitado e constrangedor para as autoridades taubateanas. Um perspicaz batedor de carteiras conseguiu furtar o relógio e a corrente de ouro do Marquês de Paranaguá, “afirmaram outros, entretanto, que o roubado fora o dr. Francisco Ribeiro de Moura Escobar, então delegado de polícia de Taubaté” (Correio do Vale do Paraíba, 28 de dezembro de 1945, p. 5).

O Barão de Tremembé ofereceu aos monarcas e comitiva um grandioso almoço. Ao entrar no palacete do Barão, duas meninas jogaram pétalas de rosas sobre Suas Majestades. Lá dentro, antes do almoço, o Imperador recebeu a comissão da colônia italiana que prosperava em Taubaté.

Terminado o almoço, o Barão de Tremembé levou o Imperador e a Imperatriz para visitarem a igreja e o Colégio do Bom Conselho, na época dirigido por irmãs de São José. As alunas do colégio cantaram o hino de saudação e os monarcas percorreram todo o estabelecimento, demorando-se mais do que o esperado (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2).

Saindo de lá, se dirigiram ao prédio da cadeia e Câmara, sendo recebidos pelos vereadores que estavam em posição de corporação. O Imperador entrou em cada cela e começou a interrogar os presos, fazendo diversas observações sobre a prisão subterrânea, quando se deparou com sete escravos. “Uma das pessoas que o acompanhavam tendo dito que aqueles escravos estavam presos por ordem dos seus senhores, os quais julgavam-se com direito de assim fazer, o Imperador acrescentou: ‘Em suas casas’” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2). Sobre o prédio da Câmara Municipal o achou muito velho e em mal estado, afinal o edifício havia sido construído em 1645 e tinha passado por poucas reformas. Novamente d. Pedro II pediu que lhe mostrassem os padrões de pesos e medidas, mas os vereadores não os encontraram, contrariando o Imperador.

Visitou o Hospital Santa Izabel, sendo recebido por Joaquim Vieira de Moura, então vice-provedor, onde percorreu todas as alas e enfermarias. Em uma das dependências, d. Pedro II “chamou a atenção do sr. Barão de Sabóia para uma preta que apresentava no rosto um enorme sarcoma tomando todo o maxilar superior” (Correio do Vale do Paraíba, 28 de dezembro de 1945, p. 5). Na saída, orou na capela de Santa Izabel, assinando o livro de visitas e deixando uma quantia de 100 mil réis para auxiliar a administração do hospital.

Deixaram o hospital e dirigiram-se ao convento Santa Clara, que na época tinha como guardião o padre Francisco Cosco. Como as atividades do convento estavam paradas há tempos, o Imperador “manifestou desejo de que se fizesse ali uma colônia orfanológica, sendo assim melhor aproveitados os terrenos em vasta área e a casa de vivenda” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p.2).

Capela do Pilar

Ao saber que havia na capela do Pilar um retrato antigo do frei Antônio de Santa Úrsula Rodovalho, d. Pedro II quis visitar a igreja. Chegando lá indagou aos que o acompanhavam: “’O que este homem faz aqui? Este foi um brasileiro ilustre, foi o confessor de minha avó’ – Responderam então a S. M. que a Igreja do Pilar fora construída por Timóteo Corrêa de Toledo, pai do bispo Rodovalho, ambos taubateanos” (Correio do Vale do Paraíba, 28 de dezembro de 1945, p. 5). Ao observar a pintura existente na capela do Pilar, lembrou que ela tratava-se de uma cópia da pintura original então presente no Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro; porém a cópia de Taubaté, datada de 1871, não agradou ao Imperador, que a achou defeituosa (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2).

A comitiva então seguiu para Tremembé para visitar a igreja do Senhor Bom Jesus, a fonte da água santa e as minas de xisto betuminoso. Na igreja o Imperador e a Imperatriz rezaram. Na fonte beberam a água santa, sendo seguidos pelas pessoas que os acompanhavam. Já na mina de xisto, mineral utilizado para produção de gás para a iluminação pública, d. Pedro II ficou bem interessado pelo material e solicitou que colhessem diversos fósseis ali encontrados para que posteriormente pudesse estudá-los.

Na manhã do dia 20 de outubro, partiu a comitiva Imperial rumo à Caçapava, levando no trem o dr. Falcão Filho, o dr. Paula Toledo e o Barão de Tremembé. Em Caçapava, o Imperador desceu na estação onde foi recepcionado em alas dos alunos das escolas públicas da cidade e pelas autoridades ali presentes.

Pela primeira vez, d. Pedro II pisava em solo da progressista cidade de São José dos Campos. A comitiva foi recebida pelos vereadores da Câmara Municipal e por outras autoridades da cidade. “Música, salvas de bombas, recepção entusiástica” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2). Antes de saírem do Vale do Paraíba rumo à capital da província, também fizeram rápida parada na cidade de Jacareí, onde o cerimonial de recepção foi o mesmo das cidades anteriores. “O dr. juiz de direito serviu café a Suas Majestades” (Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886, p. 2).

O Imperador parece ter gostado da recepção feita pelo Barão de Tremembé em Taubaté, pois um mês depois, na viagem de volta à Corte, a comitiva Imperial também pernoitou na cidade. D. Pedro II e d. Thereza Cristina jantaram e dirigiram-se ao Teatro São João a convite do Barão, assistindo a uma peça dramática em suas honras. Às 8h32 da manhã do dia 19 de novembro, todas as autoridades locais, clero e grande quantidade de gente compareceram à última despedida aos monarcas.

D. Pedro II, Thereza Cristina, o Conde d’Eu e os demais ministros e titulares do Império saíam do Vale do Paraíba paulista, deixando para trás alguns poucos nobres sinceramente cativados pelo jogo de cena das visitas Imperiais, mas um séquito de cafeicultores escravocratas insatisfeitos, que nos dias de festa levantavam vivas ao Imperador, mas ao apagar das luzes reuniam-se em clubes republicanos.

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Jornais:

Correio Paulistano, 19 de outubro de 1886.
Correio Paulistano, 20 de outubro de 1886.
Tribuna do Norte, de 12 de setembro de 1886.
Tribuna do Norte (24 de outubro de 1886.
Correio do Vale do Paraíba, 28 de dezembro de 1945.

Documentos avulsos:

Ata da Câmara de Lorena, 19 de setembro de 1886.
Ata da Câmara de Lorena, 29 de setembro de 1886.
Ata da Câmara de Lorena, 5 de outubro de 1886.
Ata da Câmara de Lorena, 15 de outubro de 1886.
ata da Câmara de Lorena, 24 de outubro de 1886.

Livros:

EVANGELISTA, J. G. Lorena no século XIX. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.

SOBRINHO, A. M. A civilização do café, 1820 – 1920. (Cap. XIII: Imperadores e príncipes no Vale). Ed. Brasiliense, 1978.

RODRIGUES, Gama. O Conde de Moreira Lima. São Paulo: IGB, 1942.

1884: uma Princesa malvista

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Após as festas de fim de ano e a correria do começo de 2012, trago mais uma das viagens realizadas por d. Pedro II e pela Princesa Isabel às cidades do Vale do Paraíba paulista. Hoje, publico trechos da viagem feita pela Princesa Isabel em 1884. Espero que gostem!

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A década de 1880 foi composta por anos bem difíceis para a monarquia brasileira. Pressões de vários lados surgiam dia após dia. Os abolicionistas, já em grande número, almejavam uma posição firme da família Imperial contra a questão da escravidão. Por outro lado, os cafeicultores do sudeste, principalmente os conservadores da região do Vale do Paraíba fluminense e paulista já estavam há tempos arrepiados com a ideia da monarquia cortar sua fonte de mão-de-obra. Grande parte desses fazendeiros tinham em seus escravos a única fonte de riqueza. “Numa relação de hipotecas de 1883, observa-se que o valor do escravo chega a representar 80% e até 90% do valor da fazenda, havendo regiões em que supera o valor das terras, como, por exemplo, em Sapucaia, Barra de São João e Taubaté” (VIOTTI, 1997, p. 263). Como esperar que esses cafeicultores escravocratas fossem simpáticos às causas abolicionistas defendidas pela legítima representante do Império brasileiro?

Para tentar apaziguar os ânimos dos liberais, dos republicanos que ganhavam espaço e principalmente dos cafeicultores descontentes é que a Princesa Isabel e d. Pedro II dedicaram duas viagens oficiais (1884 e 1886, respectivamente) à região do Vale do Paraíba paulista.

Princesa Isabel, Conde D’Eu e filhos (1885)

Em 1884, a princesa e o Conde d’Eu organizaram uma estratégica visita às “províncias do Sul”, como eram chamadas São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande. Em São Paulo, visitariam Lorena e fariam rápidas paradas nas demais cidades do Vale paulista, dirigindo-se à capital e à região de Campinas.

Em sessão extraordinária de 22 de setembro de 1884, os vereadores lorenenses aprovaram uma série de medidas para o embelezamento da cidade, visando a inauguração do Engenho Central, que oportunamente ocorreria na presença dos príncipes Imperiais (Ata da Câmara de Lorena, 22 de setembro de 1884).

Com a cidade preparada, a Princesa Isabel chegou a Lorena com o Conde d’Eu e seus filhos no dia 5 de novembro, às 2h30 da tarde (Correio Paulistano, 6 de novembro de 1884, p. 2). Nas cartas que enviou para seu pai (reunidas em forma de diário pelo escritor Ricardo Daunt) a princesa reclama ao chegar na estação de Lorena: “chegada a Lorena, às 2 horas e meia, com meus olhos ardendo desesperadamente, por causa do carvão” (DAUNT, 1957, p. 26). O desconforto era causado não só pela fumaça emitida pela locomotiva, mas também pela poeira que a estrada de ferro levantava devido ao fato de ainda não estar empedrada (DAUNT, 1957, p. 51).

Conde de Moreira Lima

Ainda na estação, o Visconde de Moreira Lima os aguardava com duas carruagens prontas para levá-los ao seu palacete, onde seriam hospedados. Às 7 horas da noite foi servido um jantar para todos os convidados. Poucos titulares da região fizeram-se presentes no evento; dentre eles estavam os Viscondes da Palmeira, a Baronesa de Paraibuna, o Barão de Romeiro, a Viscondessa de Guaratinguetá, a Viscondessa de Pindamonhangaba e o chefe do Partido Liberal, dr. Manoel Marcondes de Moura e Costa (DAUNT, 1957, p. 52).

No dia seguinte, os príncipes visitaram a recém-construída Igreja de São Benedito, erguida graças aos esforços e dinheiro do Visconde de Moreira Lima. Dali seguiram de bondinho de tração animal para o maior empreendimento industrial do Vale do Paraíba paulista àquela época: o Engenho Central de Lorena. Todo financiado e construído pela família Moreira Lima, o Engenho possuía vapores fluviais e ramal ferroviário próprios, chamando a atenção e o interesse do Conde d’Eu (SOBRINHO, 1978, p. 104). Novamente, a Princesa Isabel relata em suas cartas a d. Pedro II a passagem pelo Engenho do Visconde: “visita ao Engenho Central, muito interessante. O Pedro seguiu todo o processo, com o maior interesse” (DAUNT, 1957, p. 26).

Engenho Central de Lorena

Aparentemente tudo ocorreu na mais perfeita harmonia e os príncipes foram muito bem recebidos. Porém, quando se apagam as luzes da festa, acendem-se o fogo das más línguas. A imagem do casal de príncipes já estava bem arranhada devido aos conflitos de uma sociedade escravocrata que não via com bons olhos as declarações de apoio da Princesa Isabel aos abolicionistas. Nessa última visita da Princesa Isabel, a futura Baronesa de Santa Eulália, irmã do então Visconde de Moreira Lima, escrevendo a uma de suas colegas sobre as festividades de recepção ao casal de príncipes, relatou: “eu não faço parte e nem tomo parte em nada, porque seu Pai não gosta da Princesa” (AZEVEDO, 1962, p. 38), deixando claro sua indisposição em fazer parte daquele teatro armado pelo irmão. Evangelista (1978, p. 179) descreve que “muitas das meninas das melhores famílias não jogaram pétalas de rosa no casal, quando chegou ao palacete, e muitas senhoras não participaram nem do jantar de gala, nem do concerto e nem do baile na residência do Dr. Teófilo Braga”. Se em 1868, os dias em que os príncipes permaneceram em Lorena foram extremamente concorridos, em 1884 a Princesa Imperial e seu Augusto Esposo pareciam não mais atrair tanta gente.

Coroa doada pela Princesa Isabel

Desta forma, ainda no dia 6 de novembro, a comitiva Imperial deixou a cidade de Lorena, rumo à Guaratinguetá. A breve parada nesta cidade tinha objetivo bem específico, conforme observado pela própria Princesa Isabel: “parada em Guaratinguetá, parada para subir à Capela de Nossa Senhora Aparecida, fazer oração” (DAUNT, 1957, p. 26). Nesta ocasião, segundo a crônica publicada no jornal Santuário de Aparecida (19 de novembro de 1921, p. 5) a princesa voltou à igreja, junto com o marido e seus três filhos para agradecer à santa por ter atendido seu pedido feito em 1868: o de engravidar do herdeiro do trono brasileiro. Se em 1868, a devota princesa doou um majestoso manto, dessa vez a imagem ganhava uma rica coroa de ouro, a mesma que foi utilizada na coroação de Nossa Senhora Aparecida como Rainha e padroeira do Brasil, em 1904 (MOURA, 2002, p. 111).

Dali partiram para Pindamonhangaba, onde foram recepcionados pela Viscondessa de Pindamonhangaba. Após breve parada, seguiram para Taubaté e Caçapava, apenas descendo na estação. Saíram então do Vale do Paraíba e rumaram para Santos, onde embarcaram para o porto de Paranaguá, rumo às províncias do Sul.

Na volta para a Corte, cerca de quatro meses depois, a Princesa Isabel, o Conde d’Eu e seus filhos passaram novamente pela região, fazendo breves paradas pelas estações das cidades e pernoitando novamente na residência dos Moreira Lima. Em Pindamonhangaba, ocorreu um fato que demonstrou o desprezo que os titulares da região tinham pela figura da Princesa Imperial. O jornal Tribuna do Norte (13 de março de 1885, p. 3) noticiou o constrangimento pelo qual os príncipes passaram na estação de Pindamonhangaba:

Passaram no dia 12 para a corte SS. AA. II. que chegado do passeio que fizeram à província do Rio Grande. Na estação, além dos empregados da companhia, nem viva alma. O trem especial em que vinham demorou-se meio minuto, e… foram-se os príncipes, com destino à Lorena, onde tinham de pernoitar em companhia do Exmo. Sr. Visconde de Moreira Lima.

Parece que nem o Barão da Palmeira, eterno incansável em tentar agradar e encantar a família Imperial, estava fora do grupo dos nobres cafeicultores que viam a Princesa Isabel como a responsável direta pelo fim da utilização da mão-de-obra escrava.

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Livros:

AZEVEDO, A. Arnolfo de Azevedo – infância e adolescência (1868 a 1887). São Paulo: Nacional, 1962.

DAUNT, R. G. Diário da Princesa Isabel: excursão dos Condes D’Eu à Província de São Paulo em 1884. São Paulo: Anhembi, 1957.

EVANGELISTA, J. G. Lorena no século XIX. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.

SOBRINHO, A. M. A civilização do café, 1820 – 1920. (Cap. XIII: Imperadores e príncipes no Vale). Ed. Brasiliense, 1978.

VIOTII, E. Da senzala a colônia. São Paulo: Unesp, 1997.

Jornais:

Correio Paulistano, São Paulo, 6 de outubro de 1878.

Santuário de Aparecida, 19 de novembro de 1921.

Tribuna do Norte, Pindamonhangaba, 13 de março de 1885.

Documentos avulsos:

Ata da Câmara de Lorena, sessão extraordinária de 22 de setembro de 1884.

1878: uma viagem expressa pelos trilhos do trem

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Gostaria de relembrar que trago aqui apenas trechos da minha monografia, dando destaques aos principais acontecimentos e breves análises sobre a viagem de d. Pedro II em 1878 pelo Vale do Paraíba. Divirtam-se!

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1878 era ano de eleições nas diversas municipalidades do Império e os republicanos começavam a tomar corpo com a vitória de alguns candidatos. A aprovação da Lei do Ventre Livre em 1871 fomentou a ira dos cafeicultores das províncias do sul e, principalmente dos escravocratas valeparaibanos.

A prova de que os republicanos já incomodavam muitos setores da política está no jornal Gazeta de Taubaté (11 de agosto de 1878, p. 2) que relata: “a força pública de Jacarehy tomou o largo da Matriz, fez exercício de fogo, debandou o povo e tomou o paço municipal. Ouviam-se gritos de morram os republicanos!” e complementa mais à frente “os republicanos venceram nas Araras. Os republicanos e os conservadores na Limeira”. Há vários relatos de abusos de poder, brigas e uso necessário da força pela polícia para conter os desgostosos. “Em Jacarehy a força de linha foi obrigada a retirar-se. Houve uma liga entre fazendeiros. Os republicanos triunfam” (Gazeta de Taubaté, 11 de agosto de 1878, p. 2). O poder da monarquia começava a ser questionado não somente pelos primeiros republicanos, mas também pelos mais radicais do Partido Liberal.

Sabendo da importância que a presença de sua figura iria causar nas elites valeparaibanas é que d. Pedro II refez o caminho percorrido pelo seu genro um ano antes, “inaugurando” novamente cada estação de trem das cidades da região. Tratava-se de uma viagem expressa, com pequeno espaço para as cerimônias pomposas e para os encontros demorados com os políticos locais – agradando ao Imperador que já estava cansado desse tipo de ritual pomposo e bajulador.

Às 14h40, d. Pedro II, a Imperatriz Thereza Cristina e toda a comitiva chegaram à Guaratinguetá. Após breve recepção na estação de trem, seguiram de carruagem até o palacete do Visconde de Guaratinguetá, “onde lhes foram servido jantar, durante o qual a banda de música tocou” (MOURA, 2002, p. 112). Dali visitaram a igreja Matriz e a Santa Casa de Misericórdia (Diário do Norte, 11 de setembro de 1878, p. 2). Era desejo da Imperatriz uma visita à capela de Nossa Senhora Aparecida, mas foi negado por d. Pedro II que, talvez pela necessidade de logo embarcar para São Paulo, furtou-se de conhecer a capela tão visitada por sua filha. Em carta ao amigo Conde d’Eu, o Visconde de Guaratinguetá transpassa sua decepção com a negativa do Imperador em visitar a capela, que estava toda preparada para a ocasião. […] Eu senti que S. Majestade lá [na capela de Nsa. Sra. Aparecida] não fosse para ver com o estado de adiantamento em que vai aquela importante obra […]. Eu tinha mandado armar a Igreja, e tudo estava disposto para a recepção imperial (1878 apud MOURA 2002, p. 127).

Partiram dali para Pindamonhangaba. Na manhã seguinte visitaram alguns prédios públicos e foram até o palacete do Barão da Palmeira para contemplarem a vista do “soberbo Vale do Paraíba e a majestosa Serra da Mantiqueira” (MARCONDES, 1922, p. 35). O convite do Barão da Palmeira não se restringia apenas para que a família Imperial se deslumbrasse com a vista da região. Para a ocasião, ele havia mandado remodelar todo o seu palacete, trazendo um arquiteto e um decorador da França, além de adquirir vários objetos de decoração e utensílios domésticos de alto valor financeiro e artístico.

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Em Taubaté, o jornal Gazeta de Taubaté (11 de agosto de 1878, p. 3) traz a notícia da chegada do monarca de forma bem diferente daquela feita quando a Princesa Isabel pisou em solo taubateano. Usando da sátira, o jornal flerta com uma fina ironia à figura intelectual do Imperador e também faz duras críticas à pompa e à ritualística empregadas na recepção do monarca, afirmando que enquanto as lavouras da região carecem de investimento, d. Pedro II e as elites da região estão mais preocupadas com os “dias de gala” que a monarquia irá oferecer na cidade. “E o que é mais notável é – que os empregados públicos são os que mais lucram com a vinda da Majestade: que o diga cá o redator da história, em?” (Gazeta de Taubaté, 11 de agosto de 1878, p. 3). O articulista continua sua sátira às tantas pompas e cerimônias preparadas pelas cidades que recepcionaram d. Pedro II na sua rápida passagem, fazendo uma pequena poesia:

Já lá vai um dia de grande gala.

Em Lorena, a mesma cantilena!

Em Guaratinguetá…ta…ta…

Em Pindamonhangaba, o mesmo doce de goiaba.

Em Taubaté, o mesmo rapapé.

Em Caçapava… nada caçava… (Gazeta de Taubaté, 11 de agosto de 1878, p. 3).

Em 2 de outubro retornaram a Taubaté, chegando ás 10 horas da manhã e permanecendo por um período mais longo que na ida. A estação estava devidamente enfeitada com flâmulas, bandeiras e flores, além da presença do “Sr. Dr. presidente da câmara municipal, autoridades civis, clero e, numerosamente, povo em número superior a 1000 pessoas” (Gazeta de Taubaté, 6 de outubro de 1878, p. 2).
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Novamente o redator do Gazeta de Taubaté faz uma análise muito perspicaz sobre a importância que todo o jogo teatral de poder da monarquia, com sua pompa e circunstância, tem na formação da posição política de muitos cidadãos, sejam eles nobres ou não:

Não desgosto dessas manifestações, não senhores. Ao contrário, regala-me ver o povo como as cruzetas dos ventos que se movem ao menor sopro. Porem não gosto de ver o servilismo em ação quando se trata de certos, independentes e determinados caracteres que bem podiam abdicar da sem cerimonia com que se manifestam – hoje republicanos, amanhã socialistas, mais tarde liberal, conservador… etc. porque um cartório… uma barreira… até mesmo um jantar, fascina-os de tal modo que seria um crime de leso-interesse declinar do plano a que se inclinam” (Gazeta de Taubaté, 12 de outubro de 1878, p. 3).

As pompas da monarquia pareciam encantar menos aos olhos e desagradar mais à razão dos descontentes com o regime nas cidades valeparaibanas.


Livros:

MARCONDES, A. Pindamonhangaba através de dois e meio séculos. São Paulo: Tip. Paulista, 1922.

MOURA, C. E. M. O Visconde de Guaratinguetá: Um Titular do Café no Vale do Paraíba. São Paulo: Studio Nobel, 2002.

Jornais:

Diário do Norte, 11 de setembro de 1878.

Gazeta de Taubaté, 11 de agosto de 1878.

Gazeta de Taubaté, 6 de outubro de 1878.

Gazeta de Taubaté, 12 de outubro de 1878.

Documentos avulsos:

Arquivo da Casa Imperial do Brasil, Doc. 8192, de 12 de outubro de 1878.

Apresentação da monografia

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Caros amigos,

Acabo de voltar de Taubaté, onde defendi minha monografia perante a banca composta pelos professores Isnard Albuquerque Câmara Neto, Maria Januária Vilela Santos e pela minha orientadora Maria Fátima de Melo Toledo.

É com grata satisfação que anuncio que minha monografia tirou 10, com louvor! Abaixo algumas fotos.

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Agradeço a todos meus familiares, amigos e pessoas que conheci durante esse 1 ano e meio de pesquisa e que me ajudaram muito para que eu pudesse levar esse 10 para casa!

1868: uma princesa devota

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Procurei reproduzir aqui trechos da minha monografia, destacando apenas os aspectos principais das visitas de d. Pedro II e da Princesa Isabel em cada cidade. Os capítulos 1 e 2, mais conceituais, serão abordados em outra oportunidade.

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Ao alastrar-se, a notícia da visita do monarca gerava grande comoção e fazia muitas cidades se prepararem mesmo antes da formalização da visita. Foi o que ocorreu com Bananal em duas ocasiões: 1845 e 1849. Em 1845, a notícia de que o Imperador estava planejando a sua primeira visita para fora da província do Rio de Janeiro, com destino à São Paulo, exaltou os ânimos dos bananalenses, que vendo-se na rota de uma possível viagem por terra acreditaram que d. Pedro II deveria parar na cidade pela importância econômica de Bananal. Pois bem, a Câmara Municipal mobilizou os proprietários que enviassem seus escravos para consertarem as estradas da cidade. Além disso, organizou uma comissão responsável por criar um programa da visita do Imperador, destinou recursos financeiros para a realização de um Te-Deum na igreja matriz, para os festejos e para as reformas necessárias nas ruas e praças, com a instalação de dois arcos iluminados, além da orientação de que todos os cidadãos enfeitassem suas casas (RAMOS, 1975, p. 141-144). Para decepção dos bananalenses, o Imperador visitou a província de São Paulo, mas não passou pela cidade, embarcando no porto de Santos direto para o Rio de Janeiro.

Nos finais de 1868, a Princesa Isabel e seu recém-esposo Conde d’Eu, foram excursar em Minas Gerais para fazer uso das águas termais, famosas à época para usos medicinais. Na volta, o roteiro da viagem passava pelas principais cidades do Vale do Paraíba paulista rumo à capital da província de São Paulo, onde iriam cumprir uma série de compromissos oficiais (EVANGELISTA, 1978, p. 131).

Porém, o roteiro da viagem dos príncipes teve que sofrer uma redução. O Conde d’Eu havia sido chamado por d. Pedro II para assumir as tropas do Brasil na Guerra do Paraguai e, por isto, deveria abandonar os planos de estender a viagem até a capital.

Finalmente, os príncipes chegaram à Lorena e logo “sendo encontrados por mais de cento e sessenta cavaleiros” (Correio Paulistano, 23 de dezembro de 1868, p. 2) ainda na estrada que ligava Itajubá à Lorena, no local conhecido como fazenda do Campinho. Todos os preparativos foram realizados na cidade, desde reparos nas ruas, até a instalação de arcos, além da tradicional decoração das portas e janelas das casas da cidade. A comissão responsável por esta recepção foi nomeada pela Câmara e tinha a missão de “promover e dirigir os festejos na cidade, a fim de que seja a recepção a mais suntuosa possível” (Ata da Câmara de Lorena de 21 de novembro de 1868).

Para abrilhantar ainda mais a recepção preparada pelo comendador Castro Lima, contratou-se a companhia lírica de Carlotta Augusta Candiani, de enorme sucesso na Corte. “O cel. José Vicente de Azevedo havia feito vir de S. Paulo, a cavalo e em carros de boi, a artista ilustre e toda a sua lírica companhia” (RODRIGUES, 1942, p. 16). A récita de Candiani foi apresentada em um espetáculo de gala no pequeno teatro local, onde a elite lorenense esteve presente.

Visconde de Guaratinguetá

O Visconde de Guaratinguetá, homem mais poderoso em todo o Vale do Paraíba à época, anunciou a chegada da Princesa Isabel e do Conde d’Eu à cidade em sessão da Câmara Municipal de 3 de novembro de 1868. Além disso, ordenou “ao vigário e Mestre da capela para celebrar um Tedeum Laudamus no dia da chegada e afixar edital convidando o povo deste município para fazerem as festas que quiserem por tão fausto acontecimento” (Ata da Câmara de Guaratinguetá,3 de novembro de 1868).

Desta forma, ao adentrarem na cidade, a Princesa Isabel e seu marido, acompanhados pelos cavaleiros que vieram desde Lorena, devem ter se deparado com esse espetáculo descrito pelo hiperbólico articulista do jornal O Parahyba (13 de dezembro de 1868, p. 2):

Quando se aproximaram SS.AA.II., estrondaram nos ares inúmeros foguetes, que se despendiam rápido, e quase sucessivamente de diversas e grandes girandolas, e atroaram o espaço ferventes e entusiásticas aclamações do povo sem distinção de partidos políticos. Ao passarem por sob o arco do centro da cidade duas encantadoras e bem adornadas meninas, simulando dois anjos, derramaram sobre a cabeça dos augustos viajantes como que a sua cornucópia de jasmins e rosas.

No dia seguinte, os príncipes dirigiram-se à capela de Nossa Senhora Aparecida, como já era esperado pelo Visconde.Os príncipes chegaram à capela logo cedo, às seis horas da manhã. Para a Princesa Isabel o momento também era aguardado com grande expectativa, pois além de devota da santa, tinha por objetivo pedir intercessão a Nossa Senhora por dois motivos: que engravidasse dos herdeiros do Império (pois estava em tentativas fracassadas desde seu casamento em 1864) e também que a missão de seu esposo no Paraguai terminasse o mais breve possível e em sucesso (EVANGELISTA, 1978, p. 131).Adentraram à igreja e rezaram uma novena em louvor à santa. Camargo (1970, p. 291) relata, a partir do testemunho ocular do alferes Antônio José dos Santos, que nesse momento “dona Isabel doou a Nossa Senhora um riquíssimo manto com brilhantes, no valor de 18 contos de réis”.Ao saírem da capela, ocorreu mais um momento de êxtase para os ali presentes, principalmente para encanto dos príncipes, como descreve Moura (2002, p. 108):

Saindo à praça, foi o casal homenageado por Antônio Joaquim da Silva Ramos, com um solo de trombone de vara. O músico de Aparecida era dono de um talento inesperado: executava solos com os dedos do pé! Foi grande o sucesso de Antônio Ramos: o príncipe o abraçou, a princesa ofereceu-lhe um lenço de seda e o trombonista foi convidado para tocar nessa mesma noite no baile que, em seu solar da Rua da Figueira, em Guaratinguetá, o visconde ofereceria aos Condes d’Eu.

Antônio trombonista, como era conhecido, era ex-escravo e costumava tocar nas festas da capela. Por possuir um dom especial para a música, emocionou os príncipes, que o levaram a deixar sua condição de anônimo para tornar-se músico profissional. “Dizem que Antônio seguiu para Vila Rica, Ouro Preto e seus estudos foram a expensas da Princesa e até consta que foi para a Europa” (CAMARGO, 1970, p. 293).

No quinto dia de hospedagem na cidade do Visconde de Guaratinguetá, os príncipes decidiram fazer nova visita à capela de Aparecida. Nesta segunda visita dos príncipes à capela, há uma história que contribuiu para a mística envolta à figura da princesa e da santa encontrada no rio Paraíba do Sul. O jornal O Parahyba (13 de dezembro de 1868, p. 3) relata o acontecido como “um novo verdadeiro milagre de N. S. da Conceição Aparecida”. A história foi disseminada pelos jornais da capital da província de São Paulo e também da Corte.
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O jornal Correio Paulistano (22 de dezembro de 1868, p. 2) relatou que um guarda nacional que havia sido escolhido para juntar-se às tropas na Guerra do Paraguai tentou por todas as vias legais deixar de fazer parte do quadro de soldados de guerra. Porém, com a urgência do recrutamento em massa, o delegado de Lorena, José Vicente de Azevedo, não hesitou, mandou prender e algemar o guarda, enviando-lhe à pé até São Paulo. Quando passou por Aparecida, o guarda pediu que parassem para que ele orasse na capela. Neste mesmo instante em que estava ajoelhado orando, adentrou ao templo a Princesa Isabel, o Conde d’Eu, o Visconde de Guaratinguetá e os poucos membros da comitiva que os acompanhavam nesta rápida e não planejada visita. O guarda acorrentado jogou-se aos pés da princesa, implorando a reparação pela injustiça que estava sofrendo, solicitando que lhe fossem tiradas as algemas. A Princesa Isabel então pediu ao Conde d’Eu que ordenasse a retirada das algemas. Este logo se aproximou do tenente que acompanhava o guarda preso e indagou: “Que fez este homem? É assassino, é criminoso?” (O Parahyba, 13 de dezembro de 1868, p. 3). O tenente então respondeu que se tratava de um guarda nacional designado. Surpreso, o Conde exclamou: “um guarda nacional designado! Pois conduz-se, assim, algemado um guarda nacional n’um paiz livre! Oh! sr. tenente, mande tirar estas algemas; o guarda nacional irá como homem de bem” (O Parahyba, 13 de dezembro de 1868, p. 3).

Barão da Palmeira

Após longa estada, finalmente pelo dia 14, às 5 horas da manhã, o casal deixou Guaratinguetá rumo à Pindamonhangaba. A cidade de Pindamonhangaba também tentou encantar o casal durante a breve visita que fizeram à localidade. Nos três dias que ali permaneceram, tiveram como principal anfitrião o Barão da Palmeira, que não mediu esforços para tornar sua estada a mais aprazível possível.

Um dos grandes destaques da estada da Princesa Isabel e do Conde d’Eu em Pindamonhangaba, foi a construção de um bosque pelo Barão da Palmeira. A pedido do titular, o presidente da Câmara comprou uma faixa de terra de aproximadamente 450 m2 que se localizava entre o palacete do titular e o rio Paraíba do Sul, exatamente onde hoje se encontra o parque municipal Bosque da Princesa. A intenção do Barão da Palmeira era construir um requintado lugar onde os recém-casados, pudessem desfrutar de momentos de privacidade. O titular “mandou vir da França botânicos e um desenhista para remodelar completamente o logradouro, resultando num bosque com diversos tipos de árvores, de várias origens e de várias espécies” (GUIMARÃES, 2007, p. 50).

Visconde do Tremembé

No dia 16 de dezembro o casal partiu de Pindamonhangaba e chegou à Taubaté, última cidade da província de São Paulo a visitarem antes de retornarem à Corte, para atender ao chamado de d. Pedro II.

Ao entrarem na cidade de Taubaté, as janelas das casas encontravam-se “cheias de moças, que em todo o trajeto, faziam cair uma chuva de flores sobre o carro em que vinham Suas Altezas Imperiais” (Paulista,20 de dezembro de 1868, p. 3). A casa do então Barão de Tremembé, principal titular da cidade e responsável pela organização e hospedagem dos príncipes Imperiais, encontrava-se com especial iluminação instalada para a ocasião. Haviam sido montados dois coretos em frente ao palacete, onde tocavam as bandas musicais da cidade.

No dia seguinte, logo às 7 horas da manhã, os príncipes Imperiais em companhia do barão e da baronesa de Tremembé foram visitar a capela de Tremembé. Ao saírem da capela, juntou-se a eles o conselheiro Feijó e o juiz de direito da comarca de Taubaté, para visitarem “a Cadeia, o Convento de S. Clara, cemitério anexo e o Hospital de caridade” (Paulista, 20 de dezembro de 1868, p. 3). O hospital visitado se transformaria no futuro hospital Santa Isabel, tendo como patrona e uma das principais financiadoras a própria Princesa Isabel.
Dali partiram no dia 19 de dezembro para Pindamonhangaba, alcançando Guaratinguetá no mesmo dia. Dos três dias que passaram na residência do Visconde de Guaratinguetá, ficou marcado na memória dos presentes o faustoso jantar oferecido pelo Visconde e pelos príncipes à elite local (MOURA, 2002, p. 110). Às 7 horas da manhã do dia 23 de dezembro seguiram para Lorena e depois rumaram para o Rio de Janeiro. Sofreu então Isabel a angústia de ver o marido partir para a guerra, quando tudo estava tão incerto.
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Referências Bibliográficas

CAMARGO, C. B. R. Passagem da Princesa Isabel em Guaratinguetá e Aparecida. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paulista, vol. LXVII, São Paulo, 1970.

EVANGELISTA, J. G. Lorena no século XIX. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.

GUIMARÃES, B. Recontando a História de uma Princesa. Pindamonhangaba: São Benedito, 2007.

MOURA, C. E. M. O Visconde de Guaratinguetá: Um Titular do Café no Vale do Paraíba. São Paulo: Studio Nobel, 2002.

RAMOS, A. Pequena história de Bananal. São Paulo: Sangirardi, 1975.

RODRIGUES, Gama. O Conde de Moreira Lima. São Paulo: IGB, 1942.

Jornais

Correio Paulistano, São Paulo, 23 de dezembro de 1868.

Correio Paulistano, São Paulo, 22 de dezembro de 1868.

O Parahyba, Guaratinguetá, 13 de dezembro de 1868.

Paulista, Taubaté, 20 de dezembro de 1868.

Documentos avulsos

Ata da Câmara de Lorena de 21 de novembro de 1868.

Ata da Câmara de Guaratinguetá,3 de novembro de 1868.

Apresentação do trabalho

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Para os interessados, segue a data e local da apresentação desse meu trabalho de conclusão de curso:

Dia: 09 de dezembro

Horas: 19h00

Local: Dep. Ciências Sociais e Letras UNITAU – R. Visconde do Rio Branco, 22, Taubaté – SP

Todos estão convidados(as)!!

Última estação: Arquivo do Estado de São Paulo

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Bem amigos, finalmente estamos nos finalmentes. Amanhã entrego minha monografia e começo a me preparar para minha defesa na banca. Além da minha orientadora, a prof. Drª. Maria Fátima de Melo Toledo, estarão lá os dois professores que convidei para serem avaliadores do meu trabalho: prof. Dr. Isnard de Albuquerque Câmara Neto e a prof. Drª. Maria Januária Vilela Santos.

Nos próximos posts, vou colocar trechos das histórias das viagens de d. Pedro II e da Princesa Isabel pelo Vale do Paraíba. Histórias que coletei ao longo das minhas pesquisas nos empoeirados arquivos da região.

Bom, hoje gostaria de contar o último arquivo que passei: o Arquivo do Estado de São Paulo. Nos meus planos iniciais, eu não iria ao Arquivo do Estado, mas quando acabei de visitar os arquivos aqui da região, analisei as tantas peças do quebra-cabeça que tinha pesquisado ao longo dos meses e vi que ainda faltavam algumas peças. Primeiramente, pensei em ir ao Rio de Janeiro novamente para pesquisar nas edições do Jornal do Commercio,  na época o melhor e mais abrangente jornal da Corte. Mas, devido ao tempo curto que teria e também à escassez de dinheiro em que eu me encontro, optei por uma alternativa mais barata. Aliás, fazer pesquisa sem o auxílio de bolsa e sendo estagiário é algo desafiador.

O acervo de jornais do Arquivo do Estado é fenomenal! Possui jornais desde os primórdios da imprensa no Brasil, com edições próximas aos primeiros anos do Brasil independente. Minha pesquisa se baseou nos jornais do período entre 1846 a 1889. Obviamente que comecei pelos jornais dos anos de 1868, 1878, 1884 e 1886, quando d. Pedro II e a Princesa Isabel viajaram pelo Vale. Infelizmente não deu tempo de pesquisar nos demais jornais de outras datas.

Em todas as datas encontrei vastas informações. Em 1868 e, principalmente em 1886 haviam belíssimas descrições detalhadas das viagens dos Imperantes pela região. Com o avanço da tecnologia, proporcionada pela 2ª Revolução Industrial, os jornalistas se comunicavam com as sedes dos jornais ou por telégrafo, ou pelo telegrama que viajava todos os dias pelos trens. Desta forma, com a diferença de apenas um dia, o jornal Correio Paulistano publicava o que havia acontecido nas visitas do Imperador. O Correio Paulistano está para São Paulo do século XIX, assim como o Jornal do Commercio está para o Rio de Janeiro do mesmo período.

Deixarei para os próximos posts o destaque de alguns acontecimentos pitorescos dessas viagens, mas trago aqui em primeira mão o menu do jantar servido em Lorena pelo então Visconde de Moreira Lima para recepcionar d. Pedro II e a Imperatriz Thereza Cristina em 1886. A tradução do francês para o português é da minha irmã, Naiara Santos. Deliciem-se!

ORIGINAL

TRADUÇÃO

Potages

Creme de volaille aux pointes d’Asparge

Consomné printaimier

 

Hors-d’oeuvre

Rissoles a la Perigord

Croustades a la Montglas

 

Relevés

 

Garoupa sauce écrevisses

Filet aux pommes de terre

 

Entrées

 

Gatueax à la Napolitaine

Còtelettes d’agneau aux petits poix

 

Piéces froides

Mayonnaise de hommard à la gelèe

 

Aspic1 de fois gras

Funch a la Imperiale

 

Dinde à la Brésilliene

Jambon d’York et historié

 

Entremets

Asperges sauce Hollaise

Pudding a la Diplomate

Gelée fouettée

Bavaroise a la Vanille

Fromage glacé

 

Fruits de la saison

 

Dessert Assorti

 

Cafée cognac et liqueurs

Sopas

Creme de frango com aspargos

Consumir primeiramente

 

Aperitivo

Rissoles à moda Perigord

Crisps à Montglas

 

Discursos (ou brindes)

 

Garoupa com molho de lagosta

Filé com maçãs da terra

 

Entradas

 

Bolos napolitanos

Costelas de cordeiro com ervilhas

 

Saladas

Maionese com pinças de crustáceo gelada

 

“Foie gras” significa “fígado gordo”2

Erva-doce à moda Imperial

 

Perú à moda brasileira

Presunto de York e “conversas”

 

Sobremesas

Aspargos ao molho apimentado

Pudim à Diplomata (pudim de pão)

Chantily gelado

“Creme” de baunilha

Pudim de queijo gelado

 

Frutas da estação

 

“Docinho de saída”

 

Café, conhaque e licor

 

1 O Aspic liquido, é usado em geral na culinária, na preparação de musses e terrines, e também para dar brilho às carnes e aves. Faz-se adicionando gelatina ao consomê, que pode ser cortado em formas decorativas para guarnição.

2 É o fígado de um pato ou ganso super-alimentado. Junto com as trufas, o foie gras é considerado uma das maiores iguarias da culinária francesa.

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