1884: uma Princesa malvista

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Após as festas de fim de ano e a correria do começo de 2012, trago mais uma das viagens realizadas por d. Pedro II e pela Princesa Isabel às cidades do Vale do Paraíba paulista. Hoje, publico trechos da viagem feita pela Princesa Isabel em 1884. Espero que gostem!

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A década de 1880 foi composta por anos bem difíceis para a monarquia brasileira. Pressões de vários lados surgiam dia após dia. Os abolicionistas, já em grande número, almejavam uma posição firme da família Imperial contra a questão da escravidão. Por outro lado, os cafeicultores do sudeste, principalmente os conservadores da região do Vale do Paraíba fluminense e paulista já estavam há tempos arrepiados com a ideia da monarquia cortar sua fonte de mão-de-obra. Grande parte desses fazendeiros tinham em seus escravos a única fonte de riqueza. “Numa relação de hipotecas de 1883, observa-se que o valor do escravo chega a representar 80% e até 90% do valor da fazenda, havendo regiões em que supera o valor das terras, como, por exemplo, em Sapucaia, Barra de São João e Taubaté” (VIOTTI, 1997, p. 263). Como esperar que esses cafeicultores escravocratas fossem simpáticos às causas abolicionistas defendidas pela legítima representante do Império brasileiro?

Para tentar apaziguar os ânimos dos liberais, dos republicanos que ganhavam espaço e principalmente dos cafeicultores descontentes é que a Princesa Isabel e d. Pedro II dedicaram duas viagens oficiais (1884 e 1886, respectivamente) à região do Vale do Paraíba paulista.

Princesa Isabel, Conde D’Eu e filhos (1885)

Em 1884, a princesa e o Conde d’Eu organizaram uma estratégica visita às “províncias do Sul”, como eram chamadas São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande. Em São Paulo, visitariam Lorena e fariam rápidas paradas nas demais cidades do Vale paulista, dirigindo-se à capital e à região de Campinas.

Em sessão extraordinária de 22 de setembro de 1884, os vereadores lorenenses aprovaram uma série de medidas para o embelezamento da cidade, visando a inauguração do Engenho Central, que oportunamente ocorreria na presença dos príncipes Imperiais (Ata da Câmara de Lorena, 22 de setembro de 1884).

Com a cidade preparada, a Princesa Isabel chegou a Lorena com o Conde d’Eu e seus filhos no dia 5 de novembro, às 2h30 da tarde (Correio Paulistano, 6 de novembro de 1884, p. 2). Nas cartas que enviou para seu pai (reunidas em forma de diário pelo escritor Ricardo Daunt) a princesa reclama ao chegar na estação de Lorena: “chegada a Lorena, às 2 horas e meia, com meus olhos ardendo desesperadamente, por causa do carvão” (DAUNT, 1957, p. 26). O desconforto era causado não só pela fumaça emitida pela locomotiva, mas também pela poeira que a estrada de ferro levantava devido ao fato de ainda não estar empedrada (DAUNT, 1957, p. 51).

Conde de Moreira Lima

Ainda na estação, o Visconde de Moreira Lima os aguardava com duas carruagens prontas para levá-los ao seu palacete, onde seriam hospedados. Às 7 horas da noite foi servido um jantar para todos os convidados. Poucos titulares da região fizeram-se presentes no evento; dentre eles estavam os Viscondes da Palmeira, a Baronesa de Paraibuna, o Barão de Romeiro, a Viscondessa de Guaratinguetá, a Viscondessa de Pindamonhangaba e o chefe do Partido Liberal, dr. Manoel Marcondes de Moura e Costa (DAUNT, 1957, p. 52).

No dia seguinte, os príncipes visitaram a recém-construída Igreja de São Benedito, erguida graças aos esforços e dinheiro do Visconde de Moreira Lima. Dali seguiram de bondinho de tração animal para o maior empreendimento industrial do Vale do Paraíba paulista àquela época: o Engenho Central de Lorena. Todo financiado e construído pela família Moreira Lima, o Engenho possuía vapores fluviais e ramal ferroviário próprios, chamando a atenção e o interesse do Conde d’Eu (SOBRINHO, 1978, p. 104). Novamente, a Princesa Isabel relata em suas cartas a d. Pedro II a passagem pelo Engenho do Visconde: “visita ao Engenho Central, muito interessante. O Pedro seguiu todo o processo, com o maior interesse” (DAUNT, 1957, p. 26).

Engenho Central de Lorena

Aparentemente tudo ocorreu na mais perfeita harmonia e os príncipes foram muito bem recebidos. Porém, quando se apagam as luzes da festa, acendem-se o fogo das más línguas. A imagem do casal de príncipes já estava bem arranhada devido aos conflitos de uma sociedade escravocrata que não via com bons olhos as declarações de apoio da Princesa Isabel aos abolicionistas. Nessa última visita da Princesa Isabel, a futura Baronesa de Santa Eulália, irmã do então Visconde de Moreira Lima, escrevendo a uma de suas colegas sobre as festividades de recepção ao casal de príncipes, relatou: “eu não faço parte e nem tomo parte em nada, porque seu Pai não gosta da Princesa” (AZEVEDO, 1962, p. 38), deixando claro sua indisposição em fazer parte daquele teatro armado pelo irmão. Evangelista (1978, p. 179) descreve que “muitas das meninas das melhores famílias não jogaram pétalas de rosa no casal, quando chegou ao palacete, e muitas senhoras não participaram nem do jantar de gala, nem do concerto e nem do baile na residência do Dr. Teófilo Braga”. Se em 1868, os dias em que os príncipes permaneceram em Lorena foram extremamente concorridos, em 1884 a Princesa Imperial e seu Augusto Esposo pareciam não mais atrair tanta gente.

Coroa doada pela Princesa Isabel

Desta forma, ainda no dia 6 de novembro, a comitiva Imperial deixou a cidade de Lorena, rumo à Guaratinguetá. A breve parada nesta cidade tinha objetivo bem específico, conforme observado pela própria Princesa Isabel: “parada em Guaratinguetá, parada para subir à Capela de Nossa Senhora Aparecida, fazer oração” (DAUNT, 1957, p. 26). Nesta ocasião, segundo a crônica publicada no jornal Santuário de Aparecida (19 de novembro de 1921, p. 5) a princesa voltou à igreja, junto com o marido e seus três filhos para agradecer à santa por ter atendido seu pedido feito em 1868: o de engravidar do herdeiro do trono brasileiro. Se em 1868, a devota princesa doou um majestoso manto, dessa vez a imagem ganhava uma rica coroa de ouro, a mesma que foi utilizada na coroação de Nossa Senhora Aparecida como Rainha e padroeira do Brasil, em 1904 (MOURA, 2002, p. 111).

Dali partiram para Pindamonhangaba, onde foram recepcionados pela Viscondessa de Pindamonhangaba. Após breve parada, seguiram para Taubaté e Caçapava, apenas descendo na estação. Saíram então do Vale do Paraíba e rumaram para Santos, onde embarcaram para o porto de Paranaguá, rumo às províncias do Sul.

Na volta para a Corte, cerca de quatro meses depois, a Princesa Isabel, o Conde d’Eu e seus filhos passaram novamente pela região, fazendo breves paradas pelas estações das cidades e pernoitando novamente na residência dos Moreira Lima. Em Pindamonhangaba, ocorreu um fato que demonstrou o desprezo que os titulares da região tinham pela figura da Princesa Imperial. O jornal Tribuna do Norte (13 de março de 1885, p. 3) noticiou o constrangimento pelo qual os príncipes passaram na estação de Pindamonhangaba:

Passaram no dia 12 para a corte SS. AA. II. que chegado do passeio que fizeram à província do Rio Grande. Na estação, além dos empregados da companhia, nem viva alma. O trem especial em que vinham demorou-se meio minuto, e… foram-se os príncipes, com destino à Lorena, onde tinham de pernoitar em companhia do Exmo. Sr. Visconde de Moreira Lima.

Parece que nem o Barão da Palmeira, eterno incansável em tentar agradar e encantar a família Imperial, estava fora do grupo dos nobres cafeicultores que viam a Princesa Isabel como a responsável direta pelo fim da utilização da mão-de-obra escrava.

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Livros:

AZEVEDO, A. Arnolfo de Azevedo – infância e adolescência (1868 a 1887). São Paulo: Nacional, 1962.

DAUNT, R. G. Diário da Princesa Isabel: excursão dos Condes D’Eu à Província de São Paulo em 1884. São Paulo: Anhembi, 1957.

EVANGELISTA, J. G. Lorena no século XIX. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.

SOBRINHO, A. M. A civilização do café, 1820 – 1920. (Cap. XIII: Imperadores e príncipes no Vale). Ed. Brasiliense, 1978.

VIOTII, E. Da senzala a colônia. São Paulo: Unesp, 1997.

Jornais:

Correio Paulistano, São Paulo, 6 de outubro de 1878.

Santuário de Aparecida, 19 de novembro de 1921.

Tribuna do Norte, Pindamonhangaba, 13 de março de 1885.

Documentos avulsos:

Ata da Câmara de Lorena, sessão extraordinária de 22 de setembro de 1884.

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1868: uma princesa devota

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Procurei reproduzir aqui trechos da minha monografia, destacando apenas os aspectos principais das visitas de d. Pedro II e da Princesa Isabel em cada cidade. Os capítulos 1 e 2, mais conceituais, serão abordados em outra oportunidade.

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Ao alastrar-se, a notícia da visita do monarca gerava grande comoção e fazia muitas cidades se prepararem mesmo antes da formalização da visita. Foi o que ocorreu com Bananal em duas ocasiões: 1845 e 1849. Em 1845, a notícia de que o Imperador estava planejando a sua primeira visita para fora da província do Rio de Janeiro, com destino à São Paulo, exaltou os ânimos dos bananalenses, que vendo-se na rota de uma possível viagem por terra acreditaram que d. Pedro II deveria parar na cidade pela importância econômica de Bananal. Pois bem, a Câmara Municipal mobilizou os proprietários que enviassem seus escravos para consertarem as estradas da cidade. Além disso, organizou uma comissão responsável por criar um programa da visita do Imperador, destinou recursos financeiros para a realização de um Te-Deum na igreja matriz, para os festejos e para as reformas necessárias nas ruas e praças, com a instalação de dois arcos iluminados, além da orientação de que todos os cidadãos enfeitassem suas casas (RAMOS, 1975, p. 141-144). Para decepção dos bananalenses, o Imperador visitou a província de São Paulo, mas não passou pela cidade, embarcando no porto de Santos direto para o Rio de Janeiro.

Nos finais de 1868, a Princesa Isabel e seu recém-esposo Conde d’Eu, foram excursar em Minas Gerais para fazer uso das águas termais, famosas à época para usos medicinais. Na volta, o roteiro da viagem passava pelas principais cidades do Vale do Paraíba paulista rumo à capital da província de São Paulo, onde iriam cumprir uma série de compromissos oficiais (EVANGELISTA, 1978, p. 131).

Porém, o roteiro da viagem dos príncipes teve que sofrer uma redução. O Conde d’Eu havia sido chamado por d. Pedro II para assumir as tropas do Brasil na Guerra do Paraguai e, por isto, deveria abandonar os planos de estender a viagem até a capital.

Finalmente, os príncipes chegaram à Lorena e logo “sendo encontrados por mais de cento e sessenta cavaleiros” (Correio Paulistano, 23 de dezembro de 1868, p. 2) ainda na estrada que ligava Itajubá à Lorena, no local conhecido como fazenda do Campinho. Todos os preparativos foram realizados na cidade, desde reparos nas ruas, até a instalação de arcos, além da tradicional decoração das portas e janelas das casas da cidade. A comissão responsável por esta recepção foi nomeada pela Câmara e tinha a missão de “promover e dirigir os festejos na cidade, a fim de que seja a recepção a mais suntuosa possível” (Ata da Câmara de Lorena de 21 de novembro de 1868).

Para abrilhantar ainda mais a recepção preparada pelo comendador Castro Lima, contratou-se a companhia lírica de Carlotta Augusta Candiani, de enorme sucesso na Corte. “O cel. José Vicente de Azevedo havia feito vir de S. Paulo, a cavalo e em carros de boi, a artista ilustre e toda a sua lírica companhia” (RODRIGUES, 1942, p. 16). A récita de Candiani foi apresentada em um espetáculo de gala no pequeno teatro local, onde a elite lorenense esteve presente.

Visconde de Guaratinguetá

O Visconde de Guaratinguetá, homem mais poderoso em todo o Vale do Paraíba à época, anunciou a chegada da Princesa Isabel e do Conde d’Eu à cidade em sessão da Câmara Municipal de 3 de novembro de 1868. Além disso, ordenou “ao vigário e Mestre da capela para celebrar um Tedeum Laudamus no dia da chegada e afixar edital convidando o povo deste município para fazerem as festas que quiserem por tão fausto acontecimento” (Ata da Câmara de Guaratinguetá,3 de novembro de 1868).

Desta forma, ao adentrarem na cidade, a Princesa Isabel e seu marido, acompanhados pelos cavaleiros que vieram desde Lorena, devem ter se deparado com esse espetáculo descrito pelo hiperbólico articulista do jornal O Parahyba (13 de dezembro de 1868, p. 2):

Quando se aproximaram SS.AA.II., estrondaram nos ares inúmeros foguetes, que se despendiam rápido, e quase sucessivamente de diversas e grandes girandolas, e atroaram o espaço ferventes e entusiásticas aclamações do povo sem distinção de partidos políticos. Ao passarem por sob o arco do centro da cidade duas encantadoras e bem adornadas meninas, simulando dois anjos, derramaram sobre a cabeça dos augustos viajantes como que a sua cornucópia de jasmins e rosas.

No dia seguinte, os príncipes dirigiram-se à capela de Nossa Senhora Aparecida, como já era esperado pelo Visconde.Os príncipes chegaram à capela logo cedo, às seis horas da manhã. Para a Princesa Isabel o momento também era aguardado com grande expectativa, pois além de devota da santa, tinha por objetivo pedir intercessão a Nossa Senhora por dois motivos: que engravidasse dos herdeiros do Império (pois estava em tentativas fracassadas desde seu casamento em 1864) e também que a missão de seu esposo no Paraguai terminasse o mais breve possível e em sucesso (EVANGELISTA, 1978, p. 131).Adentraram à igreja e rezaram uma novena em louvor à santa. Camargo (1970, p. 291) relata, a partir do testemunho ocular do alferes Antônio José dos Santos, que nesse momento “dona Isabel doou a Nossa Senhora um riquíssimo manto com brilhantes, no valor de 18 contos de réis”.Ao saírem da capela, ocorreu mais um momento de êxtase para os ali presentes, principalmente para encanto dos príncipes, como descreve Moura (2002, p. 108):

Saindo à praça, foi o casal homenageado por Antônio Joaquim da Silva Ramos, com um solo de trombone de vara. O músico de Aparecida era dono de um talento inesperado: executava solos com os dedos do pé! Foi grande o sucesso de Antônio Ramos: o príncipe o abraçou, a princesa ofereceu-lhe um lenço de seda e o trombonista foi convidado para tocar nessa mesma noite no baile que, em seu solar da Rua da Figueira, em Guaratinguetá, o visconde ofereceria aos Condes d’Eu.

Antônio trombonista, como era conhecido, era ex-escravo e costumava tocar nas festas da capela. Por possuir um dom especial para a música, emocionou os príncipes, que o levaram a deixar sua condição de anônimo para tornar-se músico profissional. “Dizem que Antônio seguiu para Vila Rica, Ouro Preto e seus estudos foram a expensas da Princesa e até consta que foi para a Europa” (CAMARGO, 1970, p. 293).

No quinto dia de hospedagem na cidade do Visconde de Guaratinguetá, os príncipes decidiram fazer nova visita à capela de Aparecida. Nesta segunda visita dos príncipes à capela, há uma história que contribuiu para a mística envolta à figura da princesa e da santa encontrada no rio Paraíba do Sul. O jornal O Parahyba (13 de dezembro de 1868, p. 3) relata o acontecido como “um novo verdadeiro milagre de N. S. da Conceição Aparecida”. A história foi disseminada pelos jornais da capital da província de São Paulo e também da Corte.
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O jornal Correio Paulistano (22 de dezembro de 1868, p. 2) relatou que um guarda nacional que havia sido escolhido para juntar-se às tropas na Guerra do Paraguai tentou por todas as vias legais deixar de fazer parte do quadro de soldados de guerra. Porém, com a urgência do recrutamento em massa, o delegado de Lorena, José Vicente de Azevedo, não hesitou, mandou prender e algemar o guarda, enviando-lhe à pé até São Paulo. Quando passou por Aparecida, o guarda pediu que parassem para que ele orasse na capela. Neste mesmo instante em que estava ajoelhado orando, adentrou ao templo a Princesa Isabel, o Conde d’Eu, o Visconde de Guaratinguetá e os poucos membros da comitiva que os acompanhavam nesta rápida e não planejada visita. O guarda acorrentado jogou-se aos pés da princesa, implorando a reparação pela injustiça que estava sofrendo, solicitando que lhe fossem tiradas as algemas. A Princesa Isabel então pediu ao Conde d’Eu que ordenasse a retirada das algemas. Este logo se aproximou do tenente que acompanhava o guarda preso e indagou: “Que fez este homem? É assassino, é criminoso?” (O Parahyba, 13 de dezembro de 1868, p. 3). O tenente então respondeu que se tratava de um guarda nacional designado. Surpreso, o Conde exclamou: “um guarda nacional designado! Pois conduz-se, assim, algemado um guarda nacional n’um paiz livre! Oh! sr. tenente, mande tirar estas algemas; o guarda nacional irá como homem de bem” (O Parahyba, 13 de dezembro de 1868, p. 3).

Barão da Palmeira

Após longa estada, finalmente pelo dia 14, às 5 horas da manhã, o casal deixou Guaratinguetá rumo à Pindamonhangaba. A cidade de Pindamonhangaba também tentou encantar o casal durante a breve visita que fizeram à localidade. Nos três dias que ali permaneceram, tiveram como principal anfitrião o Barão da Palmeira, que não mediu esforços para tornar sua estada a mais aprazível possível.

Um dos grandes destaques da estada da Princesa Isabel e do Conde d’Eu em Pindamonhangaba, foi a construção de um bosque pelo Barão da Palmeira. A pedido do titular, o presidente da Câmara comprou uma faixa de terra de aproximadamente 450 m2 que se localizava entre o palacete do titular e o rio Paraíba do Sul, exatamente onde hoje se encontra o parque municipal Bosque da Princesa. A intenção do Barão da Palmeira era construir um requintado lugar onde os recém-casados, pudessem desfrutar de momentos de privacidade. O titular “mandou vir da França botânicos e um desenhista para remodelar completamente o logradouro, resultando num bosque com diversos tipos de árvores, de várias origens e de várias espécies” (GUIMARÃES, 2007, p. 50).

Visconde do Tremembé

No dia 16 de dezembro o casal partiu de Pindamonhangaba e chegou à Taubaté, última cidade da província de São Paulo a visitarem antes de retornarem à Corte, para atender ao chamado de d. Pedro II.

Ao entrarem na cidade de Taubaté, as janelas das casas encontravam-se “cheias de moças, que em todo o trajeto, faziam cair uma chuva de flores sobre o carro em que vinham Suas Altezas Imperiais” (Paulista,20 de dezembro de 1868, p. 3). A casa do então Barão de Tremembé, principal titular da cidade e responsável pela organização e hospedagem dos príncipes Imperiais, encontrava-se com especial iluminação instalada para a ocasião. Haviam sido montados dois coretos em frente ao palacete, onde tocavam as bandas musicais da cidade.

No dia seguinte, logo às 7 horas da manhã, os príncipes Imperiais em companhia do barão e da baronesa de Tremembé foram visitar a capela de Tremembé. Ao saírem da capela, juntou-se a eles o conselheiro Feijó e o juiz de direito da comarca de Taubaté, para visitarem “a Cadeia, o Convento de S. Clara, cemitério anexo e o Hospital de caridade” (Paulista, 20 de dezembro de 1868, p. 3). O hospital visitado se transformaria no futuro hospital Santa Isabel, tendo como patrona e uma das principais financiadoras a própria Princesa Isabel.
Dali partiram no dia 19 de dezembro para Pindamonhangaba, alcançando Guaratinguetá no mesmo dia. Dos três dias que passaram na residência do Visconde de Guaratinguetá, ficou marcado na memória dos presentes o faustoso jantar oferecido pelo Visconde e pelos príncipes à elite local (MOURA, 2002, p. 110). Às 7 horas da manhã do dia 23 de dezembro seguiram para Lorena e depois rumaram para o Rio de Janeiro. Sofreu então Isabel a angústia de ver o marido partir para a guerra, quando tudo estava tão incerto.
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Referências Bibliográficas

CAMARGO, C. B. R. Passagem da Princesa Isabel em Guaratinguetá e Aparecida. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paulista, vol. LXVII, São Paulo, 1970.

EVANGELISTA, J. G. Lorena no século XIX. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.

GUIMARÃES, B. Recontando a História de uma Princesa. Pindamonhangaba: São Benedito, 2007.

MOURA, C. E. M. O Visconde de Guaratinguetá: Um Titular do Café no Vale do Paraíba. São Paulo: Studio Nobel, 2002.

RAMOS, A. Pequena história de Bananal. São Paulo: Sangirardi, 1975.

RODRIGUES, Gama. O Conde de Moreira Lima. São Paulo: IGB, 1942.

Jornais

Correio Paulistano, São Paulo, 23 de dezembro de 1868.

Correio Paulistano, São Paulo, 22 de dezembro de 1868.

O Parahyba, Guaratinguetá, 13 de dezembro de 1868.

Paulista, Taubaté, 20 de dezembro de 1868.

Documentos avulsos

Ata da Câmara de Lorena de 21 de novembro de 1868.

Ata da Câmara de Guaratinguetá,3 de novembro de 1868.

Estação Guaratinguetá

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Da terra de Monteiro Lobato fui visitar a terra de Frei Galvão. Guaratinguetá, a 4ª maior cidade do Vale do Paraíba, também teve a honra de receber a visita de d. Pedro II e da Princesa Isabel no século XIX. Naquela época, Guará era uma das mais importantes economias cafeeiras da região e da província de São Paulo, concorrendo diretamente com Taubaté, Pindamonhangaba e Bananal.

Anteriormente consultei basicamente dois trabalhos sobre a histórica da cidade:

  1. MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de. O Visconde de Guaratinguetá: Um Titular do Café no Vale do Paraíba. São Paulo, Studio Nobel, 2002.
  2. CAMARGO, Conceição Borges Ribeiro. Passagem da Princesa Isabel em Guaratinguetá e Aparecida. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paulista, São Paulo, 67:291-95, 1970.

O livros sobre o Visconde de Guaratinguetá me ajudou imensamente. Há um capítulo dedicado às visitas de d. Pedro II e da Princesa Isabel em Guará. A pesquisa realizada pelo Carlos Eugênio é extensa e muito bem fundamentada. Ele cita todas as fontes, arquivos, conjuntos documentais e acrescenta comentários de outros autores e documentos sobre determinado assunto. Um trabalho profissional. Esse livro pode ser comprado em qualquer loja online ou livraria. Recomendo!

Com base nas informações obtidas, fui à campo. Visitei o Museu Frei Galvão, onde localiza-se o Arquivo Memória de Guaratinguetá. Muita gente se engana, achando que ali estão as relíquias do primeiro santo brasileiro. O museu só leva o nome do filho mais famoso da cidade, mas não expõe seus pertences. Ali funciona um museu dedicado à história da cidade de Guaratinguetá.

Fui muito bem recebido pela Ana e pela Alice, bibliotecária responsável pelo Arquivo. Thereza Maia, maior especialista sobre a história do Vale do Paraíba é quem coordena as atividades do Arquivo, mas infelizmente ela estava na FLIP, em Paraty, quando fui lá. Não tive a honra de conhecê-la pessoalmente desta vez.

Passei dois dias no Arquivo. pesquisei nos raros jornais que ainda sobrevivem. Há algumas edições, de alguns poucos anos relativos ao período que estou estudando. Mesmo assim, encontrei bastante informação sobre a primeira visita de um membro da família Imperial brasileira ao Vale do Paraíba. Em 1868, a Princesa Isabel foi à Minas Gerais banhar-se nas águas termais de Caxambú e Lambari. Aliás, conheci no Simpósio Nacional de História uma colega historiadora que está estudando essa viagem da Princesa por Minas Gerais. Bom, quando ela e o Conde D’Eu saíram de Minas, se dirigiram á São Paulo. O objetivo era visitar a capital da província e as cidades da região de Campinas, porém um chamado da Corte interrompeu a visita da Princesa. Era a Guerra do Paraguai que chamava pelo Conde D’Eu. Os dois foram apenas até Taubaté, interromperam a viagem e regressaram à Corte. Sorte para minha pesquisa.

Pude perceber na documentação, principalmente nos jornais, que essa visita da Princesa Isabel foi marcada por misticismo e lendas. A Princesa era muito devota de Nossa Senhora Aparecida e aproveitou sua viagem para visitar a capela da santa. Aparecida na época era pertencente à Guará. Em sua estada na cidade, visitou por duas vezes a capela. Foi o bastante para surgirem as mais mirabolantes histórias que iam desde libertação de escravos até eventos sobrenaturais. Há dois fatos envolvendo a Princesa Isabel que vale à pena mencionar.

O primeiro realmente aconteceu e foi relatado pelo jornal “O Parahyba”. Um guarda nacional foi preso na cidade de Lorena pelo autoritário delegado daquela cidade. Ao invés de enviá-lo em liberdade para São Paulo, como deveria fazer, mandou acorrentá-lo e ir debaixo de forte temporal. Quando o guarda nacional passou pela capela de Nsa. Sra. Aparecida, pediu para parar e rezar para a santa. Neste exato momento, a comitiva da Princesa Isabel e do Conde D’Eu chegaram à capela. O pobre do guarda se jogou aos pés da Princesa e rogou-lhe clemência. No mesmo momento, a Princesa solicitou ao Conde D’Eu que ordenasse a libertação do presidiário. Daí para o acontecimento virar milagre foi um pulo.

O segundo relato que trago para vocês trata-se de uma especulação que nunca foi comprovada. Nessa primeira visita da Princesa, corre a história de que ela pediu intercessão da santa para que ela engravidasse de um varão, herdeiro do Império. Ao que parece, ela vinha tendo dificuldades em engravidar, o que justificava sua viagem para se tratar nas águas termais de Minas Gerais. Junto à solicitação da graça, a Princesa Isabel doou um manto azul real com 21 pedras preciosas: mesmo manto que veste a imagem da padroeira do Brasil. 16 anos depois, em 1884, a Princesa voltou à capela de Nossa Senhora Aparecida, com seu marido e seus 3 filhos, para agradecer a graça alcançada. Deixou de presente uma coroa de ouro para ser colocada na imagem da santa. Dizem que, como o costume manda, a Princesa varreu toda a capela e colocou um pouco da poeira dentro de seu corpete.

Difícil saber o que é verdade e o que é criação do imaginário popular. Mas, o que mais importa para o meu trabalho é justamente analisar o motivo que levou essas pessoas a criar uma imagem de quase santa para a Princesa Imperial. Que fascínio a imagem da “Redentora” causava naquelas pessoas para acreditarem que ela simbolizava um elo entre Nossa Senhora Aparecida e o povo brasileiro comum? Perguntas que aos poucos vou encontrando respostas.

As visitas de d. Pedro II em Taubaté

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Ao voltar do Rio de Janeiro, me dediquei a pesquisar nos arquivos e bibliotecas públicas das cidades do Vale do Paraíba, principalmente naquelas que tinha indícios da passagem do Imperador ou de sua filha, a  Princesa Isabel. Comecei por Taubaté, por ser a cidade onde estudo e trabalho e também por conhecer o “caminho das pedras”.

Meu primeiro passo se deu na Biblioteca da UNITAU e na Biblioteca Municipal, onde selecionei uma lista de cerca de 15 livros contendo relatos da história da cidade e de vultos nobres do passado. Na lista abaixo, vocês podem observar alguns dos livros que mais trouxeram informações valiosas sobre as passagens de d. Pedro II e da Princesa Isabel por Taubaté. São livros de vários tipos, desde obras de historiadores renomados e que procuraram dar um caráter científico à pesquisa originária do livro, até obras de escritores, políticos e simplesmente amantes da cidade natal, que desejavam relatar o que ouviram de “história” de Taubaté ao longo de suas vidas. Tudo foi válido na hora de compor o panorama de atuação da minha pesquisa. Mais válido ainda, foram as fontes documentais indicadas pelos autores, que facilitou meu caminho dentro do Arquivo Municipal de Taubaté.

  1. ABREU, Maria Morgado de. Taubaté, de Centro Irradiador de Bandeirismo a Centro Industrial e Universitário do Vale do Paraíba. Aparecida, Ed. Santuário, 1985. Pg. 60.
  2. MARTINS, Gilberto. Taubaté nos seus Primeiros Tempos. Taubaté, Empr. Gráf. Edit. Taubaté Ltda., 1973.
  3. ORTIZ, José Bernardo. São Francisco das Chagas de Taubaté. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 1996.
  4. TOLEDO, Francisco de Paula. História do Município de Taubaté. 2ª edição anotada. Taubaté: Prefeitura Municipal, 1976. Pg. 63
  5. GUISARD, Oswaldo Barbosa. Taubaté no aflorar do século. Taubaté, edição do autor, 1974
  6. GUISARD FILHO, Felix. Convento de Santa Clara, achegas à história de Taubaté. São Paulo, Athena Editora, 1938. Pg. 79 e 80.
  7. BERINGHS, Emilio Amadei. Conversando com a saudade: crônicas. São Paulo, Bisordi, 1971.
  8. MELLO JR., Antonio. Hospital Santa Izabel. Taubaté, Egetal, 1976.

Com a pesquisa que já tinha feito na Internet e com os dados que encontrei nos diversos livros que pesquisei, pude delimitar minha pesquisa documental, pelo menos no que tange a datas. Aliás, a Internet foi fundamental para dar o ponta-pé inicial à minha pesquisa. É óbvio que há muita informação incompleta e errada, mas o que já está publicado na rede ajuda a dar um norte para o pesquisador. Utilizar a Internet como ferramenta de pesquisa é imprescindível e poupa muito tempo do historiador.

1846, 1868, 1878, 1884 e 1886 eram os anos que tinha encontrado informações de possíveis visitas do monarca em solo taubateano. A partir daí, fui ao CDPH (Centro de Pesquisa e Documentação Histórica) e ao Arquivo Municipal pesquisar principalmente nos jornais da época e nas atas da Câmara municipal. No CDPH, pude pesquisar as atas da Câmara e delimitar ainda mais as datas em que o Imperador esteve na cidade. Com essas informações fui ao Arquivo Municipal pesquisar principalmente nos jornais da época. Tenho a obrigação de agradecer a d. Lia Carolina, coordenadora do Arquivo de Taubaté e a Amanda, que também trabalha lá, pela fundamental ajuda que me deram na minha pesquisa documental. Encontrei relatos publicados em jornais de outras épocas e mais livros que citavam a passagem do Imperador por Taubaté graças à ajuda delas. Isso sem contar a educação e paciência que as duas me atenderam durante as minhas três visitas ao Arquivo.

Arquivo Municipal de Taubaté

A pesquisa foi árdua no começo. Não estava encontrando muitas informações nos jornais. Muitos jornais se perderam no tempo e as edições que relataram tão ilustre visita não chegaram até nossos dias. Porém, com o avanço da pesquisa, comecei a encontrar informações valiosíssimas. Uma informação levava a outra e com isso fui montando o meu quebra-cabeça. As datas foram se confirmando e eu fui enriquecendo as descrições das visitas de d. Pedro II e de sua filha a Taubaté.

Em 1846, o Imperador não passou por Taubaté, mas uma comissão de cidadãos da cidade foi até São Paulo encontrar com o monarca e lhe pedir para que implantasse um Liceu de Artes e Ofícios no atual Convento Santa Clara. Anos depois, o Liceu estava em pleno funcionamento. Descobri também um erro na história de Taubaté. Muitos livros que li, inclusive de historiadores consagrados na cidade, citavam 1876 como a primeira visita de d. Pedro II à cidade. Tanto nas atas da Câmara, como nos jornais não há qualquer menção a visita do monarca nesta data. Pelo contrário, essa primeira visita deu-se em 1878, dois anos após. Creio que todos esses historiadores se basearam em um artigo do Felix Guisard Filho, publicado num jornal de 1945, onde ele cita essa visita, mas com a data errada. Faltou a esses historiadores aprofundar a pesquisa nos documentos da época.

Há muitos outros relatos e descrições das visitas que d. Pedro II fez a Taubaté (1878 e 1886) e também as que a Princesa Isabel fez (1868 e 1884). Eles visitaram as igrejas, hospitais, conventos e até a cadeia da cidade. Esticaram a viagem até Tremembé e Caçapava. E sempre se hospedaram na casa daquele que era o homem mais poderoso da cidade: o barão e depois Visconde de Tremembé, avô de Monteiro Lobato.

Gostei do que encontrei sobre Taubaté, tanto nos documentos do Arquivo Municipal e no CDPH, quanto nos livros sobre a história da cidade. Obviamente que gostaria de ter encontrado mais informação, mas o que coletei já daria uma boa história.

Bibliografia: a primeira estação

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Todo bom trabalho de pesquisa deve começar pelo básico: livros. Ler tudo o que já escreveram sobre seu tema é algo essencial, principalmente quando se trata de uma monografia. A bibliografia de uma pesquisa é a primeira parte que uma banca avaliadora ou um historiador vai olhar, além, claro, da metodologia aplicada no trabalho. Há alguns livros que são como mantra para determinados assuntos. Se você não utilizá-los, pode ter certeza que quem está avaliando seu trabalho o analisará com um pouco de desprezo. Eu não concordo muito com isto, mas nem sempre as regras da Academia são plausíveis para todos. Acredito que livros e obras são temporais, como toda a história da humanidade. O que é correto hoje, pode ser errado amanhã. O que é inovador pode se tornar obsoleto. Há muitos livros que não emplacaram, não venderam e não se tornaram “bibliografia obrigatória” por vários motivos e nem por isso podem ser desqualificados ou não utilizados como base fundamental de uma pesquisa.

Vejam o caso de Norbert Elias (1897 – 1990), um dos autores que estou utilizando para escrever a parte teórica da minha pesquisa. Elias era judeu em plena Alemanha nazista. Teve que se exilar na França e depois ir morar na Inglaterra, onde começou a sua produção na área da sociologia. Escreveu verdadeiros tratados sobre o comportamento humano, abrangendo temas renegados pela História e pela Sociologia como o sexo, a etiqueta, a violência, etc. Devido a circunstâncias históricas, Elias ficou durante um longo período como um autor marginal. Somente nos ano setenta é que uma nova geração de teóricos “ressuscitaram” seus trabalhos e começaram a enxergá-los com outros olhos. Hoje, Norbert Elias é considerado um dos mais influentes sociólogos de todos os tempos. Imaginem então, quantos autores e livros brilhantes não estão empoeirando nos fundos das bibliotecas por diversos motivos?

Como, infelizmente, tenho que “dançar conforme a regra”, incluí em minha bibliografia os livros clássicos sobre o tema de minha pesquisa. Para estudar a mística da realeza e as formas criadas pela monarquia para legitimar seu poder, me baseei em dois livros clássicos. O primeiro é “A Fabricação do Rei” do inglês Peter Burke, que narra como foi construída a imagem do “Rei Sol”, Luís XIV em pleno século XVII e  XVIII. Um bom livro para publicitários e marqueteiros pessoais. Podemos afirmar que as formas de “publicidade” das monarquias modernas são baseadas nas técnicas desenvolvidas ao extremo pelos ministros de Luis XIV, principalmente por Colbert.

O segundo livro base para minha pesquisa é “Os reis taumaturgos” do francês consagrado pela historiografia, Marc Bloch. Esta obra-prima de Bloch conta como surgiu e se perpetuou a crença de que os reis detinham o poder de cura de um determinado tipo de doença, apenas com o toque de suas mãos. Ele narra desde o possível surgimento dessa crença na Idade Média até os resquícios no início do século XX, quando o livro foi escrito. O que mais impressiona é a quantidade de documentos utilizados na pesquisa de Bloch.

Precisava ainda afunilar ainda mais sobre meu tema, afinal estou estudando a monarquia no Brasil. Para o embasamento necessário sobre o reinado de d. Pedro II e todo o aparato utilizado pela monarquia brasileira para criar uma imaginário quase místico sobre a figura do nosso Imperador, busquei dois livros daquela que é considerada hoje a maior especialista em Império no Brasil: Lilia Schwarcz. O primeiro livro foi “As barbas do Imperador”, livro que me inspirou a fazer essa pesquisa 9e muitas outras que estão por vir). Esse livro é fascinante, com uma linguagem acessível a todo tipo de leitor (historiador ou não) e uma vasta coleção de imagens que dão um charme a mais à obra. Na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2010 pude encontrar com a própria Lilia e agradecê-la pessoalmente pela obra, pedindo, claro, algumas dicas sobre minha pesquisa. Inesquecível!

Outro livro da mesma autora foi “O Império em procissão”, uma pequena obra, quase complemento do “As barbas do Imperador”, mas que foca exclusivamente nas festas oficiais e populares ocorridas durante o segundo Reinado e que eram utilizadas como forma de ora divinizar a figura do monarca, ora popularizá-lo. D. Pedro II tinha um extenso calendário de festas e cerimônias oficiais para participar, mas ainda arranjava tempo para descer de seu trono e caminhar junto com a população em uma procissão do Divino, por exemplo.

Quando pensei que minhas leituras estavam suficientemente realizadas, eis que me deparo com a necessidade de conhecer melhor o que foi produzido sobre a história de cada cidade do Vale do Paraíba, por onde d. Pedro II e a Princesa Isabel passaram. Afinal, se eu li sobre a construção da mística da realeza e as formas de legitimação do seu poder e depois sobre as formas que a monarquia brasileira encontrou de reforçar seu poder, não poderia deixar de conhecer como as populações e elites locais receberam esse “teatro do poder”, como se relacionaram e perceberam essa teatralização. Foi aí que fiz uma lista extensa de livros que relatam as passagens da Família Imperial pelas cidades de Caçapava, Taubaté, Tremembé, Pindamonhangaba, Guaratinguetá, Aparecida, Lorena, Cachoeira Paulista, Cruzeiro, Bananal e Areias, até eu descobrir mais alguma cidade por onde nosso monarca “dignou presentar com Vossa Augusta presença”.

Tudo começa no Rio

2 Comentários

Como toda viagem de nosso ilustríssimo monarca, o trem sempre sai da capital do Império, da Corte, do Rio de Janeiro. E foi lá que iniciei minha pesquisa.

Visitei o Arquivo Nacional e a Biblioteca Nacional. Foi uma missão quase impossível, pois tinha apenas 3 dias para realizar uma pesquisa quilométrica e enfrentar a burocracia insensata do Arquivo Nacional. Só para se ter uma ideia, eles solicitam no mínimo 3 dias úteis para processar seu pedido e entregar os documentos, ou seja, se eu pedisse na quarta-feira (quando cheguei ao Rio), só iriam me entregar na segunda-feira (e eu ia embora no sábado de manhã). Graças a uma alma bondosa e compreensiva consegui acelerar o processo e receber meus documentos em 2 dias, na sexta-feira. Agradeço imensamente a Rosane do Arquivo Nacional, que teve a sensibilidade de perceber que eu vinha de longe e só tinha aqueles poucos dias para realizar minha pesquisa. Sua ajuda foi fundamental.

No primeiro dia me dediquei a selecionar os documentos que pretendia pesquisar no Arquivo Nacional. Uma imensidão de fichas, gavetas e armários. Mesmo com uma pré-seleção feita pelo site do AN, deu trabalho descobrir e encontrar o que realmente iria ajudar a minha pesquisa.

Quinta-feira, o segundo dia, foi dedicado à Biblioteca Nacional. Uma construção enorme e imponente só poderia trazer bons ventos para minha pequena aventura em terras cariocas. Mas, aí ficou minha maior decepção. Passei o dia todo vasculhando a obra de Begonha Bediaga, “Diário do Imperador d. Pedro II, 1840-1891“, principalmente o CD-rom que acompanha e contém todos os diários de d. Pedro II transcritos e digitalizados. A obra é fenomenal, um belo trabalho. Porém, o Imperador não escreveu nenhuma linha a respeito de suas passagens pelo Vale do Paraíba. Há somente um citação da viagem feita pelo Imperador em 1878: “Guaratinguetá, Pindamonhangaba”. Somente isto e nada mais.

Mesmo assim, foi de grande valia a obra de Begonha Bediaga. As análises que ela fez sobre os diários e sobre as viagens do Imperador irão embasar melhor minha pesquisa. Destaco abaixo um trecho do livro que considero uma ótima justificativa para minha pesquisa (pg. 33):

Além disso, em um momento marcado pela instabilidade política, as fronteiras eram, de certa forma, fortalecidas e, mesmo, justificadas pela presença do monarca, que tornava “memoráveis” as suas passagens. Era como se, na ótica local, o simples trajeto da comitiva imperial legitimasse o pertencimento a esse Estado, que não era sequer nação.

Nesta toada, fui ao meu último dia de pesquisa. No Arquivo Nacional uma pilha enorme de documentos esperava minha pessoa. Foram 8 horas direto de pesquisa, sem beber água, sem comer e nem almoçar. Pela quantidade de documentos e por ser o último dia que eu ficaria no Rio de Janeiro, não poderia dar-me ao “luxo” de almoçar! O sacrifício foi válido, pois encontrei alguns documentos preciosos para minha pesquisa, principalmente do início do reinado de d. Pedro II e da sua primeira visita à Província de S. Paulo. Abaixo, coloco uma foto de um dos documentos que encontrei por lá (clique na imagem para ampliá-la).

O início da minha procura sobre os passos do Imperador no Vale do Paraíba foi compensador, mas esperava mais. Talvez tenha deixado muito documento importante para trás, talvez precisasse de mais tempo… mas as provas que trouxe do Rio de Janeiro me ajudaram a organizar as informações que tinha e a continuar a investigar por onde d. Pedro II teria andado e o que teria feito por essas bandas valeparaibanas.